MdG – Volume 5 – Capítulo 2 (Parte 2 de 10)

— Espero que esteja tudo bem com a garota…

— Sim. Detesto pensar nisso… — Alta-Elfa Arqueira, aparentemente cansada de discutir, balançou a mão como que para enxotar o pensamento terrível. Seu tom era leve, mas suas orelhas caídas falavam em nome da tristeza que sentia. — Honestamente, duvido que qualquer refém de goblin esteja segura.

— Bem… Hum…

Sacerdotisa e Alta-Elfa Arqueira deu uma a outra um sorriso tenso, e estava claro do que estavam se lembrando.

— Se ela estiver viva, iremos resgatá-la. Se estiver morta, traremos parte do seu cadáver, ou seus pertences de volta.

Tais horrores, claro, não eram de forma algum exclusiva de goblins. Seja goblins ou quer se trate de um dragão, nenhum aventureiro estava seguro nas garras de qualquer monstro. Então, a resposta de Matador de Goblins foi perfeitamente natural. Ele falou com uma voz calma e — quase mecânica — desapegada.

— …Deve existir uma forma mais agradável para dizer tudo isso — disse Alta-Elfa Arqueira com um aborrecimento compreensível, mas Matador de Goblins não pareceu notar.

— O que podemos fazer? — disse Sacerdotisa encolhendo os ombros e dando um sorriso impotente.

Lagarto Sacerdote interveio no tempo perfeito, não que ele estivesse necessariamente tentando facilitar as coisas para as garotas.

— Gostaria de saber qual motivo que os goblins teriam para atacar uma aldeia no meio do inverno. — Seu corpo imenso tremeu, quase teatralmente, como que para salientar o frio. — Não seria mais agradável para eles ficarem tranquilamente nas cavernas?

— Bem, Escamoso, isso se parece com os ursos, não? — respondeu Anão Xamã, afagando a barba branca. Ele destampou o frasco em seu quadril, tomando um gole e então estendendo para Lagarto Sacerdote. — Aqui. Aqueça um pouco seu interior.

— Ah! Tem a minha gratidão. — O sacerdote abriu suas mandíbulas enormes e deu um gole, depois recolocou a tampa e entregou o frasco de volta para Anão Xamã.

O anão deu uma sacudida no recipiente, ouvindo o som para julgar quanto sobrava, então pôs de volta no quadril. — Precisa de bastante comida, bebida e doces guardados para sobreviver ao inverno.

— Oh? Então parece que o outono seria o melhor momento para atacar uma aldeia. — Alta-Elfa Arqueira fez um círculo no ar com o dedo, e com toda a confiança de patrulheira que possuía, disse: — É isso que ursos e outros animais que hibernam fazem.

— Mas até os ursos se esgueiram de vez em quando no inverno — disse Anão Xamã. — E quanto a isso?

— Às vezes não têm escolha, como se não conseguirem encontrar uma boa caverna para dormir, ou se a caça foi magra no outono.

Ninguém sabia mais do que os elfos no que se refere à caça e armadilhagem. Tal é o fato que até o anão argumentador só pôde resmungar “acho que faz sentido” e assentir.

A conversa fez Sacerdotisa colocar o dedo nos lábios refletidamente e murmurar “hmm”. Ela sentia que possuía todas as peças na cabeça. Agora só tinha que uni-las…

— Oh! — exclamou ela quando a compreensão surgiu.

— O que foi? — perguntou Alta-Elfa Arqueira.

— Talvez — respondeu Sacerdotisa — seja exatamente porque o festival da colheita já acabou.

Sim, tem que ser. Mesmo enquanto falava, ela ficava cada vez mais certa.

— A colheita acabou — continuou ela — então os armazéns nas aldeias e cidades estão cheios. E os goblins…

— …querem tudo para si próprios — disse Lagarto Sacerdote, concluindo seu pensamento.

— Exato — disse Sacerdotisa assentindo levemente.

— Entendo. Então até mesmo os goblins são capazes tomar decisões lógicas ocasionalmente.

— Muito provavelmente só estão tentando causar o maior problema possível — disse Anão Xamã, puxando a barba.

— Não — disse Matador de Goblins, balançando a cabeça. — Goblins são estúpidos, mas não são tolos.

— Você soa muito seguro disso — disse Alta-Elfa Arqueira.

— Estou — disse Matador de Goblins, assentindo dessa vez. — Goblins não pensam em nada além de roubar, mas aplicam sua inteligência ao roubo.

Ele deu uma boa olhada nas flechas que vinha mexendo, depois as colocou em uma aljava em seu quadril. Ele pareceu satisfeito com o trabalho feito enquanto caminhavam. — Já experienciei.

— Entendi… — disse Sacerdotisa com um pouco de admiração.

Alta-Elfa Arqueira acrescentou o seu próprio hmm, mas não era nas palavras dele que estava interessada. O que chamou sua atenção foi o arco e flechas; que ela geralmente considerava sua própria especialidade.

— …Então, Orcbolg, o que fazia com essas flechas?

— Preparando-as.

— Oh, sério? — Ela estendeu a mão com um movimento tão suave que quase não pôde ser notado e pegou uma das flechas da aljava.

— Tenha cuidado. — Matador de Goblins parou com um aviso e não repreendeu a elfa, mostrando que ele estava acostumado com sua curiosidade. Ele, contudo, parecia um pouco irritado.

Alta-Elfa Arqueira fungou em confirmação e inspecionou a flecha. Era uma flecha perfeitamente normal e barata. A qualidade nem de longe se comparava a uma flecha élfica. A ponta possuía um brilho obscuro na luz do sol de inverno. Alta-Elfa Arqueira tocou levemente com o dedo.

— Não parece estar envenenada nem nada…

— Hoje não.

— Aw, seja legal! — A elfa franziu a testa com as palavras bruscas, mas fez um som de interesse quando virou a flecha. — A ponta da flecha não está fixada com firmeza. Ela vai soltar, sabe.

E, de fato, estava exatamente como Alta-Elfa Arqueira disse. Talvez por causa de Matador de Goblins futricando nela, a ponta da flecha barata já não estava fixada no lugar. Mesmo que ele conseguisse acertar o alvo, a ponta da flecha poderia muito bem romper, e quase certamente viria a traçar o ângulo errado.

— Orcbolg, você é um caso perdido. — Alta-Elfa Arqueira deu de ombros e balançou a cabeça, acrescentando “céus” para efeito.

Ela decidiu ignorar o anão atrás de si, que disse: “Você está demonstrando sua idade”.

— Aqui, me dê essa aljava. Vou consertar elas para você.

Ela estendeu a mão, mas Matador de Goblins apenas olhou para ela. Então disse: — Não — e balançou a cabeça. — Elas estão boas.

Alta-Elfa Arqueira olhou fixamente para ele, atônita. — Como assim?

— Porque não sabemos onde os goblins estão dormindo dessa vez.

— E como isso está conectado a essas flechas?

Não faz sentido!

Quando havia algo que Alta-Elfa Arqueira não concordava, ela poderia ser terrivelmente chata com isso.

Eles já se conheciam há quase um ano. Matador de Goblins suspirou. — Quando a flecha acerta, a haste se rompe, deixando apenas a ponta.

— Então?

— A ponta se tornará venenosa. — Ele estendeu a mão. Alta-Elfa Arqueira grunhiu e devolveu a flecha educadamente. Matador de Goblins pôs cuidadosamente de volta à aljava. — Enquanto eles não retirarem, mas simplesmente voltarem para seus buracos, sua carne começará a apodrecer, e a doença se espalhará.

E goblins não possuíam conhecimento em medicina; pelo menos por enquanto.

Um ninho apertado e sujo. Feridas que não curam. Putrefação. Uma doença grave. Isso significava…

— Provavelmente não irá matar todos, mas será um duro golpe.

— Como de costume, Orcbolg, seu plano não faz qualquer sentido para mim — murmurou Alta-Elfa Arqueira, com o rosto abatido. Ao seu lado, Sacerdotisa olhou para o céu como se estivesse angustiada.

Deuses. Ó deuses. Ele não diz por mal… bem, exceto com os goblins. Mas, por favor, perdoe-o.

Era muito tarde para ela ficar chocada com qualquer coisa que ele dissesse ou fizesse, mas ainda assim, ela se sentiu compelida a oferecer uma oração ocasional.

Matador de Goblins, se movendo rapidamente, olhou para ela. — Está assim tão surpresa?

— …Éé, bem, hum… — Sacerdotisa não pôde decidir bem para onde olhar. — Quero dizer, sendo você, Matador de Goblins, senhor…

— É mesmo? — disse ele calmamente, evocando uma risada de Lagarto Sacerdote.

— Não deixe isso te incomodar. É certamente um costume de meu senhor Matador de Goblins.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. Fica mexendo nas coisas do Matador de Goblins para você ver, vai acabar morrendo sem nem saber por quê. hauhauhauahuhuaha

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