MdG – Volume 5 – Capítulo 4 (Parte 1 de 6)

— Aquela ali é a pequena toca deles.

O frio era mordaz, mas não fazia nada para diminuir a beleza da jovem. Ela parecia a filha da nobreza, como alguém que estaria mais em casa em um salão de baile elegante do que sob o céu cinzento das montanhas do norte.

Seu cabelo cor-de-mel encaracolado estava amarrado e dividido em dois, e suas características faciais possuíam um aspecto orgulhoso. O tamanho de seu busto era óbvio, apesar da armadura de torso que usava, e sua cintura era tão fina que não precisava de um espartilho.

O florete que pendia em seu quadril era de fabricação impressionante; a forma que demandava admiração dava a mesma impressão que sua mestra.

No pescoço da garota estava uma insígnia novíssima de nível porcelana, apanhando o sol que brilhava na neve.

Ela era uma aventureira, e ela e seus quatro companheiros passaram vários dias subindo o lado da montanha nevada. Agora, um pequeno e feio buraco se abria diante deles. Uma olhada na montanha nojenta de resíduos ao lado da entrada deixava claro que era um ninho.

E do que pertencia esse ninho? Com esses heróis recém-formados aqui para combater, o que mais poderia ser?

Goblins.

O coração de Esgrimista Nobre almejava a batalha só de pensar neles.

Agora, aqui, ela não possuía família e nem riqueza, nem poder ou autoridade. Apenas as suas próprias capacidades e seus amigos a ajudariam completar essa missão. Uma verdadeira aventura.

Como o seu primeiro ato, eles se livrariam dos goblins que atacavam a aldeia no Norte. Eles iriam fazer o mais rapidamente do que alguém jamais vira.

— Muito bem! Estão todos prontos? — Ela pôs suas mãos finas nos quadris em um gesto orgulhoso que enfatizava seu peito, então apontou o ninho com a espada. — Vamos expulsar os goblins deixando com fome!

Isso fora semanas atrás.

Foi bom eles terem obstruído os túneis dos goblins erguendo barreiras defensivas ao redor das saídas. E não tinham errado em criar uma tenda, acender uma fogueira para se aquecerem e preparar uma emboscada.

— Os goblins estão atacando a aldeia porque estão com poucas provisões — dissera Esgrimista Nobre, cheia de confiança. — Eles são pequenas criaturas tolas. Alguns dias sem comida, e eles não terão alternativa senão correr.

E, de fato, foi isso que aconteceu. Eles passaram por cima de um grupo de goblins tentando atravessar as barreiras defensivas e matá-los. Dias depois, um grupo de monstros morrendo de fome surgiram, e eles, também, foram massacrados. Era seguro dizer que tudo estava indo como planejado. Eles iriam completar a missão com quase nenhum perigo e o mínimo de esforço.

Mas esse era tanto um sonho quanto a ideia de que esses novos aventureiros inexperientes pudessem, de repente, se tornar ranques platina. Se fosse tão fácil quanto imaginavam, extermínio de goblins não poderia ser chamado de aventura.

Esse era o norte do país, um lugar gelado — havia até uma calota de gelo nas proximidades — para além do território daqueles que possuíam palavras. O hálito de uma pessoa poderia virar gelo logo que deixava a boca, queimando a pele, e as sobrancelhas congeladas faziam barulho cada vez que piscavam. Os equipamentos se tornavam pesados com o frio, o vigor drenava dia após dia com quase nenhum sossego.

Havia duas mulheres no grupo de cinco pessoas, incluindo Esgrimista Nobre, apesar dos homens, é claro, mantivessem distância. Eles comeram para tentar se distrair e manter as forças. Era tudo que poderiam fazer.

Mas a carga era pesada, dado que incluía seus equipamentos, as barreiras e o equipamento para tempo frio. Individualmente, cada um deles levava poucas provisões. Um de seus membros sabia os desígnios de um armadilheiro, mas não existia garantia de que seria possível obter comida para cinco pessoas.

Flechas, também, eram limitadas. Eles poderiam tentar recuperar aquelas que usavam, mas…

Antes de mais nada, no entanto, eles ficaram sem água.

Seu grupo cometeu o erro de comer o gelo e a neve, causando diarreia e mais desgaste a sua resistência.

Eles não eram estúpidos; sabiam que tinham que derreter as coisas no fogo, mesmo que fosse problemático.

Significando, é claro, que a seguir ficaram sem combustível.

Eles estavam com a comida escassa, sem água, e sem forma de se manter quente. Isso estampava o fim vergonhoso do plano de batalha aparentemente infalível de Esgrimista Nobre.

Ainda assim, seria ridículo desistir nessa altura. Eles estavam lidando apenas com goblins, o mais fraco dos monstros. Perfeitamente adequado para principiantes, para uma primeira aventura. Correr para casa sem nem ter lutado contra as criaturas seria humilhante. Eles iriam ser marcados para sempre como os aventureiros que fugiram de goblins…

Assim sendo, alguém teria que descer a montanha, buscar suprimentos na cidade, e voltar.

Os aventureiros olhavam uns para os outros, apinhados sob sua tenda apertada, e todos focados em uma coisa. Especificamente, em Esgrimista Nobre, que tremia de frio, usando sua espada prateada como cajado para se apoiar, ainda assim devolvendo o olhar de todos.

Ninguém quer se culpar quando as coisas vão mal.

— Você vai — disse o rhea batedor, rispidamente o bastante para perfurar o coração. Mesmo sendo o primeiro a concordar quando ela tinha sugerido a tática de inanição, dizendo que achava soar interessante. — Nesse momento, sou o único a fazer todo trabalho por aqui. Vá buscar! Pegue um jantar para nós!Não aguento, murmurou ele.

— …Ele tem razão — disse o mago, concordando sombriamente sob o manto pesado. — Sabe que mais? Fui contra essa ideia desde o começo. Eu nem sequer tive a oportunidade de usar minhas magias.

— É, concordo — disse a guerreira meio-elfa a seguir, abafando um bocejo enquanto falava. — Estou ficando cansada disso.

Se Esgrimista Nobre se lembrasse corretamente, nenhum deles pensou que expulsar os goblins deixando com fome fosse uma ideia excelente no começo. Quando ela explicou que esse seria o método mais seguro, contudo, eles mudaram de ideia.

Não apenas isso, Esgrimista Nobre achava que ela e Guerreira Meio-Elfa se tornaram mais próximas nesses últimos dias de caminhada. Ela voltou seu olhar para a guerreira, se sentindo traída, e deu uma pequena fungada desdenhosa.

— Entretanto, não haveria nenhum sentido em nosso sofrimento — adicionou a meio-elfa. — E o que acha, Pequenino?

— Eh, eu não me importo com quem quer que vá. — O anão brincou com o símbolo do Deus do Conhecimento, aparentemente tentando responder com o menor número de palavras possíveis. — Mas anões e rheas possuem pernas bem curtas. E meio-elfos são muito leves. Acho que um humano é a nossa melhor aposta aqui. — Ele olhou para Esgrimista Nobre com um lampejo astuto nos olhos, que estavam quase perdidos em seus pelos faciais negros.

Guerreiros eram mais adequados para ir sozinhos do que conjuradores. Ele podia ter lhe pedido definitivamente para ir.

— …Muito bem. Vou fazer isso — respondeu secamente Esgrimista Nobre, que escutara em silêncio até aquele momento. — Obviamente é a escolha mais lógica.

Sim, era isso. Ela iria porque era lógico. Não porque seu plano falhara. Ou, pelo menos é o que repetia a si mesma enquanto fazia o caminho para baixo na longa estrada da montanha.

Se apoiando em sua espada de família como um cajado, ela tirou o peitoral de aço e guardou nas costas, já não conseguindo aguentar o peso e o frio. Ela mordeu os lábios, envergonhada que seu equipamento de aventureira havia acabado como nada mais do que mais bagagem.

Sobre isso estava a saudação a esperando de volta à aldeia.

— Oh! Mestra aventureira, você retornou! Vocês conseguiram?

— Bem, hum…

— Algum de vocês ficaram feridos?

— Ainda não… digo, não… lutamos contra eles ainda…

— Gracioso…

— Mas, queria saber… poderia… poderia compartilhar um pouco de comida conosco, por favor?

A resposta foi não.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

6 Comentários

  1. É, acho que um plano mais ofensivo seria melhor, principalmente dentro de uma caverna congelando, podia ser mais seguro contra os Goblins, mas tentar uma briga de resistência num lugar desses foi meio insensato na minha opinião

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