MdG – Volume 5 – Capítulo 4 (Parte 2 de 6)

Poderia-se imaginar como o chefe e os aldeões se sentiam. Os aventureiros que convocaram mediante a rede de missões estavam em ação há semanas e ainda assim não conseguiram nada! E agora eles queriam mais comida, mais combustível e mais água. Se a aldeia tivesse recursos sobrando para suprir cinco jovens fortemente armado, eles precisariam apelar para aventureiros para começar? Eles mal tinham para si mesmos para o inverno. Tentar apoiar um grupo aventurando ainda por cima seria demais.

Só poderia ser chamado de golpe de sorte que Esgrimista Nobre conseguiu persuadir um pouco de bagatelas deles.

— …

A ironia cruel foi que esses suprimentos adicionais só tornaram sua viagem de volta muito mais lenta e difícil. A cada passo que dava pela neve, arrependimento preenchia seu coração como o gelo que encharcava suas botas.

Eles deviam ter feito mais preparações previamente? Convidado mais aventureiros para fazer parte do grupo? Ou talvez devessem ter feito uma retirada estratégica em vez de avançar com a ideia da inanição…?

— Não! Absolutamente não! Ninguém está fugindo de goblins!

Ela deixou suas emoções falarem, mas não havia ninguém para responder.

Agora ela estava envolvida pela noite, uma noite que enegrecia ainda mais a “escuridão branca” da neve que açoitava. Ela já estava exausta quando começou essa marcha com carga pesada, e tudo sobre isso era uma crueldade com ela.

— Não vamos ceder… aos goblins…

Ela soprou em suas mãos dormentes, tentando desesperadamente montar sua tenda. Só de ter alguma coisa, qualquer coisa entre ela e a neve e o vento fariam muita diferença…

— Está frio… Tão frio…

O ar gelado da noite era impiedoso. Abraçando-se e tremendo, Esgrimista Nobre fuçou em um pouco de lenha.

Tonitrus — murmurou ela, entoando a magia Raio. Pequenos raios elétricos crepitaram da ponta de seus dedos e acenderam as toras.

Esgrimista Nobre era uma combatente da linha de frente que poderia usar magia de relâmpago, que aprendeu porque era uma tradição de família. E qual seria o mal de um pouco de raio aqui? Ela poderia usar uma ou duas vezes por dia; fazia sentido pôr em ação para acender o fogo, para que conseguisse um pouco de calor. Mas mesmo isso era um luxo, pois gastava algumas das escassas lenhas que os aldeões lhe dera.

— ………

Ela não disse mais nada, senão abraçar os joelhos, tentando se enrolar o máximo para se ajudar a evitar o som do vento e a neve uivando.

Até alguns dias atrás, ela possuía amigos.

Agora, estava sozinha.

Seus companheiros estavam algumas horas de subida. Eles estavam esperando por ela. Provavelmente.

Mas, Esgrimista Nobre simplesmente não possuía forças para alcançá-los.

Estou tão cansada…

Isso era tudo, tudo o que conseguia pensar.

Ela afrouxou o cinto e as correias de sua armadura. Era algo que ouvira uma vez que se deveria fazer. O calor do fogo começou a se infiltrar em seu corpo, e seu espírito acalmou.

Ela imaginava despachar os goblins rapidamente, facilmente. Em um piscar de olhos, ela iria subir para o ouro ou até mesmo o platina. Ela faria o seu próprio nome, sem depender do poder de seus pais. Mas quão difícil estava se tornando!

Acho que… talvez devesse ter esperado por isso.

Coisas como fama e fortuna não vinham a uma pessoa de um dia para o outro. Elas se acumulavam ao longo de décadas, séculos. Acreditava ela que, sozinha e sem ajuda, conseguiria exercer de repente um esforço digno de tais realizações?

É melhor me desculpar.

Ela queria dizer com seus amigos ou com sua família? Ela não tinha certeza, mas a humildade que sentia em seu coração era real quando fechou os olhos.

Ela começou a adormecer, com a consciência ficando mais distante. Com tanta fadiga em seus ossos, como ela poderia desejar algo além de descansar?

Foi por isso que ela não perceber de imediato o que estava ouvindo.

Paf. O som de algo úmido batendo.

De alguma forma, a extremidade da tenda erguera — o vento a apanhou? — e alguma coisa caiu próximo a fogueira.

Esgrimista Nobre se sentou onde estava dormindo e olhou sonolenta para a coisa, de forma questionadora. — Me pergunto o que… é isso…

Era uma orelha.

Não de humano, mas a orelha de um meio-elfo, cruelmente decepada até a metade.

— Oo… quêê!

Esgrimista Nobre caiu para trás. Ainda gritando, ela recuou.

Naquele momento, veio uma risada horrível; parecia cercar a tenda.

Foi pouco depois disso que alguma coisa lá fora agarrou a tenda e a destruiu.

— Ahh… oh! Não! O que é isso?! Por que está…?!

Esgrimista Nobre se contorcia debaixo da tenda caída, meio louca. A fogueira se alastrou pela tenda, provocando grandes quantidades de fumaça, fazendo seus olhos lacrimejarem e induzindo um ataque de tosse.

Quando a lutadora finalmente conseguiu sair da cilada, ela quase não era reconhecível do que já fora. Seu cabelo dourado arrumado estava desarrumado, seus olhos e nariz estavam cheios de lágrimas e ranho, e havia cinzas no rosto.

— M-merda! G-goblins…?!

Ela gritou e recuou ao avistar as pequenas criaturas sujas, se afastando do som de seus risos hediondos. Esgrimista Nobre estava completamente rodeada de goblins na noite escura e nevada. Eles possuíam clavas brutas, armas de pedra e vestiam um pouco mais do que peles.

No entanto, não era a aparência dos goblins que tanto aterrorizava Esgrimista Nobre. Era o que eles seguravam nas mãos: a cabeça familiar de um rhea, de um anão e de um humano.

Mais ao longe, a meio-elfa estava sendo arrastada frouxamente pelos cabelos, através da neve. Ela deixava uma listra vermelha para trás como um pincel por uma tela.

— Ah… por favor…

Não, não. Esgrimista Nobre balançou a cabeça como uma criança mimada, com o movimento fazendo ondas no cabelo.

Eles esperaram até que estivesse longe para atacar?

Os outros decidiram atacar a caverna enquanto Esgrimista Nobre não estivesse lá, conduzindo a esse fim terrível?

Esgrimista Nobre foi pegar a espada com a mão que não parava de tremer, tentando sacá-la da bainha…

— P-por quê? Por que não c-consigo retirá-la…?!

Ela cometera um erro crucial. O que pensou que aconteceria? Sua espada foi encharcada pela neve, depois ela deixou ao lado do fogo; e agora foi exposta ao frio outra vez. A neve derretera no cabo e na bainha. O que mais poderia fazer nessa situação, senão congelar mais uma vez?

Dezenas de goblins se aproximaram de todos os lados da combatente chorosa. A garota, contudo, apertou os lábios. Talvez não pudesse desembainhar sua espada, mas ela começou a tecer uma magia, com a língua presa pelo frio.

— Tonitrus… oriens…!

— GRORRA!!

— Hrr… ugh?!

Claro, os goblins não teriam a gentileza suficiente para deixá-la terminar. Ela foi atingida na cabeça por um golpe implacável com uma pedra; isso deixou Esgrimista Nobre de joelhos.

A “simpatia” dos goblins servia apenas um único propósito: zombar de sua presa patética, chorosa e apavorada.

Seu nariz formoso fora esmagado, com o sangue escorrendo tingindo o campo de neve.

— GROOOOUR!!

— N-não! Parem… parem, por favor! Ah! U-ugh! Não, por favor…!

Ela chorou quando eles agarraram seu cabelo, gritou quando eles pegaram sua espada.

A última coisa que viu foi seus próprios pés se debatendo no ar. Esgrimista Nobre foi soterrada por mais goblins do que poderia contar com as duas mãos.

Então, quem é que passara fome aqui? Foi isso que eles conseguiram por desafiar os goblins em seu território? Ou por deixarem de se preparar bem o bastante para executar sua própria estratégia?

Seja como for, certamente não precisamos imaginar seu destino traçado.

Esse foi o fim desses aventureiros.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

11 Comentários

  1. Além de subestimar os goblins, deram ainda tempo suficiente para eles armarem uma armadilha…

  2. É, esses ai se deram bem mal, o que será que o Goblin Slayer faria se tivesse esse grupo como companheiros? Acho que seria mais dificil considerando que esses são novatos, o grupo atual dele tem em sua maioria ranques prata e isso deve deixar muito mais simples considerando a experiência em combate que eles possuem

  3. Interessante a mudança em relação ao “filme” que fizeram sobre esse volume. Se não me engano, no filme ela não monta uma barraca e é atacada direto. Particularmente a Light Novel está muito agradável, o filme ou Ova foi raso demais.

  4. Interessante a mudança em relação ao “filme” que fizeram sobre esse volume. Se não me engano, no filme ela não monta uma barraca e é atacada direto. Particularmente a Light Novel está muito agradável, o filme ou Ova foi raso demais.

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