MdG – Volume 5 – Capítulo 4 (Parte 3 de 6)

Os olhos de Esgrimista Nobre se abriram com o som crepitante de centelhas voando. Ela sentia um leve calor, mas a dor em seu pescoço — uma sensação de ardor — a fez saber que isso era a realidade.

O que tinha acontecido? O que tinham feito com ela? Uma sequência de lembranças passou pela sua mente.

— …

Esgrimista Nobre pôs em silêncio a coberta de lado e se sentou. Ela parecia estar em uma cama.

Quando ela olhou ao redor, viu que estava em um edifício feito de troncos. Um odor formigou seu nariz; vinho? Foi um pouco de sorte que mesmo sendo enfiada em uma pilha de resíduos, não havia danificado seu olfato.

Ela estava no segundo andar de uma pousada. Em um dos quartos de hóspedes, pensou ela. Se ela não tivesse simplesmente alucinando.

Paralelamente, ela podia ver uma figura humana agachada em um canto escuro do quarto, que estava iluminado apenas pelo fogo.

A figura usava um capacete de aparência barata e uma armadura suja. A espada que carregava possuía um comprimento estranho, e um pequeno escudo redondo estava apoiado contra a parede. Ele parecia singularmente nada impressionante, exceto pela insígnia de prata em seu pescoço.

A voz de Esgrimista Nobre já não tremia. — Goblins — disse ela. Ela falou em um sussurro, mais consigo mesma do que a qualquer outra pessoa.

— Sim — respondeu o homem da mesma forma, com a voz calma e palavras francas. — Goblins.

— …Entendi — disse ela, e então se deitou de novo na cama. Ela fechou os olhos, olhando para a escuridão na parte de trás de suas pálpebras, e então os abriu bem pouquinho. — E quanto aos outros? — perguntou ela depois de um momento.

— Estão mortos — veio a resposta desapaixonada. Era quase misericordioso em sua franqueza gélida, lhe dando apenas os fatos.

— E… entendi…

Esgrimista Nobre pensou por um tempo. Ela ficou admirada com a forma que a agitação passou pelo seu coração. Ela esperava chorar, mas seu espírito estava surpreendentemente calmo.

— Obrigada por me ajudar. — Pausou. — O que quero dizer é… acabou?

— Não. — As tábuas rangeram quando o homem se levantou. Ele apertou o escudo no braço esquerdo, verificou a condição do capacete, depois se aproximou dela com um ritmo ousado e indiferente. — Há algumas coisas que gostaria de te perguntar.

— …

— Só me diga o que conseguir.

— …

— Não se importa?

— …

Provavelmente tomando o silêncio de Esgrimista Nobre como aprovação, o homem estranho continuou imparcial: Quantos goblins ela encontrara? Qual era a disposição do ninho? Que tipos de goblins havia? Onde ela os encontrou? Que direção?

Ela respondeu sem emoção.

Não sei. Não sei. Todos pareciam os mesmos. Perto da caverna. Norte.

O homem apenas grunhiu “Hmm” sem acrescentar mais nada.

Snap. Crac. Os momentos de fala intermitente foram unidos ao resmungo do fogo na lareira.

O homem se levantou e pegou um atiçador, mexendo tranquilamente no fogo. Por fim, ele falou, ainda de frente para a lareira e um pouco mais baixo que antes.

— O que vocês fizeram?

— …Tentei expulsá-los de fome — disse Esgrimista Nobre, algo puxou a beira de seus lábios. Foi só um ligeiro gesto, tão pequeno que ninguém senão ela notou. Mas ela pensou que sorriu. — Tinha certeza de que funcionaria.

— Entendi. — Ela assentiu com essa resposta calma.

Bloqueie as saídas da caverna, espere até que os goblins comecem a morrer de fome, então acabe com eles. Ela e seus amigos podiam fazer juntos, sem problemas. Ganhar um pouco de experiência, aumentar de ranque. E então… e então…

— Tinha tanta certeza…

— Entendi — repetiu ele e assentiu. Ele mexeu no fogo outra vez e colocou de lado o atiçador. Houve um retinir de ferro quando ele se levantou. O chão rangeu. — Sim, compreendo como isso poderia acontecer.

Esgrimista Nobre olhou vagamente para ele. O capacete a impedia de ver seu rosto. Ela percebeu que essas foram as primeiras palavras reconfortantes que ele lhe disse.

Talvez o homem já tivesse perdido o interesse em Esgrimista Nobre, pois ele caminhou até a porta. Antes de ele alcançar, ela o chamou.

— Ei, espere!

— O quê?

Algo estava passando por ela, uma imagem sombria e ambígua de algum lugar no extremo de suas memórias.

Aquela armadura suja. Aquele capacete barato. Aquela espada estranha e escudo redondo. Alguém obstinado e estranho, com uma insígnia de prata ao redor do pescoço. Alguém que matava goblins. Tudo apenas uma tênue lembrança.

Mas isso a fazia lembrar de certas partes de uma canção que ouviu em algum lugar. Trouxe de volta lembranças de tempos, tempos atrás, quando ela e seus amigos estavam rindo juntos na cidade.

Um aventureiro conhecido como o homem mais gentil da fronteira.

— Você é… Matador de Goblins?

— ……

Ele não respondeu de imediato; houve um momento de silêncio.

Então, sem se virar, ele disse: — Sim. Alguns me chamam assim.

Sua voz, como sempre, não dava dicas de suas emoções, e com isso, ele deixou a sala.

Houve o som da porta fechando. O atiçador no chão era o único sinal de que ele esteve ali.

Esgrimista Nobre olhou para o teto. Alguém havia limpado sua pele e lhe vestido, e lhe trocou com um traje bruto e sem adornos. Ela pôs a mão no peito, que erguia e descia no tempo de sua respiração. Foi aquele homem que limpou seu corpo? Ou não? Sinceramente, ela não se importava de todo modo.

Não sobrou nada para ela agora. Nada mesmo.

Ela abandonara sua casa, seus amigos se foram, e sua castidade foi roubada. Ela não possuía dinheiro nem equipamento.

Isso não é verdade.

Ela avistou algo em um canto do quarto, no canto onde o homem — Matador de Goblins — esteve sentado. Armadura de couro, surrada e furada, e sua bolsa de itens, agora suja.

A dor em seu pescoço reapareceu.

Matador de Goblins… Aquele que mata goblins.

Parecia que os goblins não repararam que a bolsa de Esgrimista Nobre possuía um fundo falso costurado.

Tradicionalmente, ao usar um florete, a pessoa levava um objeto na mão oposta que ajudaria na defesa.

O que ela escondia no fundo de sua bolsa de itens era a segunda lâmina adornada com joias de sua família. Era uma adaga de alumínio forjado por um martelo rápido e certeiro contra uma joia vermelha.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

10 Comentários

      1. Sem dúvidas!
        Uma prova de disso é como a Alta-Elfa Arqueira (com seu bando), a Donzela da Espada (se não me engano o nome kk) e agora um nobre como a Esgrimista Nobre, ouviram sobre as histórias dele.

        1. Sim é donzela da espada, eu devia ter percebido, ela tem Nobre no “nome” então deve ter vindo da região da capital kkkkkkk

  1. A primeira impressão que tive da conversa deles, é que eles se dão bem( cada um entendeu o outro com poucas palavras kkkk).

    PS: Fiquei até com pena dela nesse final…

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!