MdG – Volume 5 – Capítulo 4 (Parte 6 de 6)

— Céus. Você não tem esposa, então? — Lagarto Sacerdote pareceu bastante surpreendido, mas Anão Xamã respondeu: — Na verdade não. Penso em passar mais ou menos cem anos aproveitando a vida de solteiro, bancando o bon vivant.

Lagarto Sacerdote riu, pondo a língua para fora e bebendo alegremente sua bebida. — Mestre Conjurador, quão jovem você parece. É o suficiente para deixar um lagarto velho com inveja.

— Ah, mas acredito que sou mais velho que você. — Ele estendeu a jarra de vinho convidativamente; Lagarto Sacerdote assentiu e levantou o copo.

Matador de Goblins foi o próximo. Ele grunhiu “Hum” e simplesmente estendeu seu copo. Álcool o preencheu.

— Se certifiquem de desfrutar de sua vida — disse o xamã, acrescentando: — Seja com goblins, deuses ou o que for. — Então ele se acomodou para apreciar o vinho.

Seu olhar se instalou sobre as duas jovens conversando.

— Rir, chorar, raiva, desfrutar; a garota orelhuda é boa nisso, não é?

— …

Matador de Goblins olhou para seu copo, sem dizer nada. Um capacete de aparência barata encarava de volta do vinho, tingido com a cor dos candeeiros. Ele ergueu o copo até o capacete e bebeu em um gole. Sua garganta e estômago pareciam estar queimando.

Ele soltou um suspiro. Assim como ele fazia quando estava em um longo caminho, olhando para trás, olhando para frente e continuando.

— Nunca é tão simples — disse ele.

— Não, suponho que não — respondeu o anão.

— Não é? — perguntou Lagarto Sacerdote. — Acho que tem razão.

Os três homens riram sem fazer barulho.

Foi só então que as garotas os notaram, olhando para eles com perplexidade.

— O que foi? — perguntou Alta-Elfa Arqueira.

— Há algum problema? — disse Sacerdotisa.

Anão Xamã pôs de lado suas questões, e depois de dar as coisas um momento para sossegar, Matador de Goblins disse:

— Agora. Sobre os goblins.

— Ah-ha! Então chegamos ao ponto, Corta-barba. — Anão Xamã retirou as gotículas de sua barba e se moveu no assento. — Acho que esse seguidor paladinesco é o líder deles.

— Sim — assentiu Matador de Goblins. — Nunca lutei com tal goblin também.

— A questão é: quão inteligente ele é?

— Ele foi capaz de imitar minha flecha, pelo menos. — Matador de Goblins pegou a ponta da flecha de sua bolsa, a rolando pela mão. Estava manchada com o sangue de Alta-Elfa Arqueira. Isso lhe dava uma sensação sombria. — E se conseguimos destruir trinta e seis deles em uma expedição, significa que nossos inimigos são muitos.

— Então, quer dizer um pouco de cérebro e um monte deles? Parece outro dia de trabalho com goblins — disse Anão Xamã.

As coisas no Festival da Colheita de alguma forma acabaram a favor deles, mas isso foi porque eles conheciam o terreno e fizeram preparativos. Ainda que não houvesse mais inimigos do que na fazenda, os aventureiros eram apenas cinco. Lutar em território hostil parecia bastante intratável.

Lagarto Sacerdote, que escutava em silêncio, fez um barulho com a garganta e depois disse seriamente: — E há mais um problema. — Ele golpeou o chão com a cauda, esticou os braços e tocou a garra na marca mais nova que Matador de Goblins fizera no mapa. — Especificamente, caso tenhamos sorte em entrar nas fortificações inimigas, o que faremos de lá?

— Ah, sobre isso — disse Matador de Goblins. — Se conseguirmos entrar…

Criiiic.

Tão logo ele falou, houve um som de madeira rangendo. Imediatamente, todos os aventureiros pegaram suas armas.

Eles seguraram a respiração. O dono da pousada se retirara muito antes.

Lentamente, os rangidos se tornaram passos calmos. Alguém descia as escadas, depois expirou.

— Goblins…?

A voz era tensa, quase como um suspiro. Ela veio de Esgrimista Nobre, que estava segurando o corrimão da escada, balançando instavelmente. Ela usava uma armadura esfarrapada sobre suas roupas de cama leves, e em sua mão, uma adaga prateada cintilava na luz.

Mítrio…? Não, a cor é clara demais. Um item mágico de algum tipo, talvez…?

Anão Xamã se viu entrecerrando os olhos com o brilho. Pensar que isso deveria ser algo que ele, um amigo do metal, nunca vira.

— ……Então… Também vou.

— Nem pensar! — Alta-Elfa Arqueira foi a primeira a responder. — Viemos para resgatar você devido a missão que seus pais publicaram. — Ela olhou para os olhos de Esgrimista Nobre com a franqueza élfica característica. Aqueles olhos eram profundos e escuros, como o fundo de um poço; ou assim pareciam para ela.

A menção de seus pais não pareceu mexer tanto com Esgrimista Nobre.

Houve um suspiro, bem levemente.

— Antes de colocar sua vida em perigo novamente, não acha que devia pelo menos ir para casa falar com eles? — disse Alta-Elfa Arqueira.

— ……Não. Não posso fazer isso. — Esgrimista Nobre balançou a cabeça, seu cabelo cor-de-mel sacudiu. — ……Tenho que recuperar.

Lagarto Sacerdote juntou as mãos de uma forma estranha, apoiando o queixo nelas. Com os olhos fechados, ele parecia meio que em uma oração, meio como se com uma dor duradoura. Calmamente, ele perguntou:

— E ao que se refere?

— Tudo — respondeu firmemente Esgrimista Nobre. — Tudo o que perdi.

Sonhos. Esperanças. Futuros. Castidade. Amigos. Camaradas. Equipamentos. Uma espada.

Tudo o que os goblins roubaram dela e levaram para o fundo de seu buraco sombrio.

— Não posso dizer que não compreendo — disse Lagarto Sacerdote após algum tempo, com sua respiração sibilante. Esgrimista Nobre falava de orgulho, de um modo de vida. Lagarto Sacerdote juntou as palmas em um gesto estranho. — Um naga tem o seu orgulho precisamente por ser um naga. Se não tiver orgulho, não é mais um naga.

— S-só um momento…! — disse Alta-Elfa Arqueira. Lagarto Sacerdote estava bem calmo e controlado; embora, pensando bem, ele parecia gostar de combate. As orelhas da elfa caíram com pena, mas agora elas se ergueram de novo. — Anão! Diga alguma coisa!

— Por que não a deixar fazer o que quer? — disse o xamã.

— Agh?!

Mais um som não-élfico — ela parecia ter um repertório cada vez maior — veio da garganta de Alta-Elfa Arqueira.

Anão Xamã não ligou, mas, agitando a última gota de sua garrafa de hidromel, disse: — Nossa missão era resgatá-la. Cabe a ela o que fazer depois disso.

Et tu, anão?! E se ela morrer, hein?! E então?

— Você mesma pode morrer. Ou eu. Ou qualquer um de nós. — Ele esvaziou esse último copo e limpou a boca. — Todo ser vivo morre um dia. Vocês elfos deveriam saber disso melhor do que ninguém.

— Bem… bem, é, mas…

Suas orelhas voltaram a cair. Alta-Elfa Arqueira olhou ao redor com a expressão de uma criança perdida que não sabia o que fazer.

Sacerdotisa encontrou seus olhos, e isso quase impediu a garota de dizer o que diria a seguir. Ela olhou para o chão, mordeu os lábios e bebeu silenciosamente a última parte do vinho de seu copo. Se não tivesse, Sacerdotisa achava que não teria conseguido dizer. — Vamos… vamos levá-la junto.

Se ela não dissesse a eles, ninguém mais o faria.

— Se… se não…

Ela não pode ser salva.

Sem dúvida, não haverá salvação para ela.

Sacerdotisa mesma fora assim uma vez.

E — ela suspeitava — até ele.

— Eu… — começou ele (Matador de Goblins), escolhendo suas palavras com muito cuidado — …não sou seus pais, nem sou um amigo.

Esgrimista Nobre não disse nada.

— Você sabe o que deve ser feito quando se tem uma missão em mente.

— Sei.

— Ei!

Mas, quase antes que Alta-Elfa Arqueira conseguisse colocar as palavras para fora da boca, houve um som dilacerante desagradável.

O cabelo dourado saiu voando pelo ar.

— ………Sua recompensa. Estou pagando adiantado.

Ela pegou uma mecha de cabelo que acabara de cortar. Ela cortou outra mecha com sua adaga — mais um som dilacerante — e colocou na mesa. Os seus dois rabos de cavalo, uma vez amarrados com uma fita, agora foram cruelmente arrancados.

— ………Eu também vou.

Seu cabelo estava brutalmente curto agora, e seus lábios repuxados com determinação; a imagem de alguém empenhado na vingança.

Sacerdotisa ouviu um grunhido suave de dentro do capacete de Matador de Goblins.

— Matador de Goblins… senhor…?

— O que você consegue fazer?

Ele ignorou o olhar de Sacerdotisa, em vez disso, atirou essa pergunta a Esgrimista Nobre.

Sem hesitação, a garota respondeu: — Consigo usar espada. E uma magia, Raio.

O capacete se virou, olhando para Anão Xamã.

— Invocar raio — disse ele desinteressadamente. — Uma coisa muito poderosa, como um canhão.

— …Muito bem — disse suavemente Matador de Goblins. Depois perguntou: — Não se importa?

O capacete se virou para Alta-Elfa Arqueira, que estava olhando para ele de modo suplicante. Agora, ela evitou seus olhos; ela agarrou o copo com as duas mãos e olhou para chão. Por fim, ela esfregou os cantos dos olhos com seus braços e olhou para ele compassivamente. Ela disse apenas: — Se está bem com isso, Orcbolg…

— Ótimo. — Matador de Goblins enrolou o mapa e se levantou.

Era claro o que devia ser feito.

Era a mesma coisa que sempre tinha de ser feito.

Sempre e em todo lugar.

Não importa o quê.

Era o que ele fizera nos últimos dez anos.

— Então vamos exterminar goblins.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

7 Comentários

  1. Vlw pelo capitulo, so eu que lembrei da sakura no clássico cortando os cabelo, eles ja explicaram se a Titulos nesse mundo? tipo que trazem abilidades passivas como em alguns RPGs.

    1. Capacidades passivas, como as raciais, sim. Por exemplo: anões, homens-lagarto, elfos possuem algum grau de visão noturna…

  2. Eu gostaria que essa Esgrimista se tornasse um integrante do grupo.
    MAS, se tratando de GS, já perdi as esperanças. e-e’

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