MdG – Volume 5 – Capítulo 5 (Parte 3 de 11)

— Mas… você vai nos resgatar, não é?

— Essa é a minha intenção.

Sacerdotisa abriu a boca para dizer mais alguma coisa, depois fechou rapidamente de novo. Sua expressão se suavizou como se tivesse desistido.

— Bem… Está bem então.

Com isso, ela exalou suavemente. Mesmo com os vários aquecedores mágicos, o ar esfumaçou assim que deixou sua boca.

Ele poderia ter dito Vai ficar tudo bem, Confie em mim, ou Não vou deixar os goblins encostarem um dedo em vocês; qualquer coisa para dar algum conforto às garotas. Mas ele não fez. Nunca fez.

É claro, se ele fosse todo afetuoso e carinhoso, ela poderia suspeitar de que alguém roubara sua armadura. Mas, ainda assim…

Ele realmente não tem jeito, pensou ela. Ela não sabia porque a fez sentir vontade de sorrir, mas reprimiu o impulso. Ela podia sentir Esgrimista Nobre ao seu lado, com o corpo rígido; se era de nervosismo ou de medo, Sacerdotisa não sabia.

— Está tudo bem — disse Sacerdotisa. — Matador de Goblins está aqui. Todos estão aqui.

— Eles estão vindo — disse Alta-Elfa Arqueira abruptamente, erguendo as orelhas.

— GROOOBR!

A criatura que apareceu era pequena ao lado do portão do qual surgiu, e seu grito era mínimo comparado ao de Lagarto Sacerdote.

Era um único goblin, vestido com vestes esfarrapadas de sacerdote. Ele estava, sem dúvida, tentando parecer tão intimidador quanto possível, mas seus passos pequenos e instáveis pareciam bastante cômicos. Mesmo assim, de alguma forma a característica tola, como se ele fosse uma caricatura de um sumo sacerdote orgulhoso, também o fazia estranho.

— GORARO! GORBB!!

O goblin parou na frente de Lagarto Sacerdote e gesticulou imperiosamente, acenando a mão e gritando alguma coisa. Lagarto Sacerdote, ainda mantendo o sinal sagrado, assentia seriamente ao mesmo tempo. Matador de Goblins e Anão Xamã mantinham suas cabeças baixas como bons discípulos, silenciosos e calados.

— O que ele está dizendo? — sussurrou Alta-Elfa Arqueira para Sacerdotisa.

— Não faço ideia — murmurou ela de volta, balançando a cabeça. Como ela compreenderia a língua dos goblins? — Acha que esse é o goblin paladino?

— Ele meio que parece mais com um sumo sacerdote para mim.

— ……Estão erradas. — A voz de Esgrimista Nobre interrompeu seus sussurros. — ………Esse… não é ele.

A chama do ódio ardia em seus olhos; Sacerdotisa não pôde deixar de reparar.

Oh…

Um pequeno pensamento deixou muito claro onde o goblin conseguiu suas vestes sacerdotais.

— Está bem… — disse ela, abraçando Esgrimista Nobre. Ela não tinha certeza se seus sentimentos foram transmitidos, mas esperava que sim.

Agora…

— Nesse caso, podemos pedir uma audiência com o governante dessa fortaleza? O paladino em pessoa?

— GORA! GORARARU!

— Ah, esses? Esses são os meus dois servos fiéis. E essas outras, meu… presente. — Lagarto Sacerdote fez um gesto que englobava a jaula; ele parecia realmente senhorial. — Conseguimos capturar algumas aventureiras patéticas. Uma das quais, devo acrescentar, já carrega a marca de uma oferenda.

— ORRRG! GAROOM!

— Ah, muito mesmo, entendo. Nos leve até a prisão. Precisamos cortar seus membros para que não escapem.

O sacerdote goblin assentiu e, com um gesto que era uma imitação cômica do próprio Lagarto Sacerdote, fez sinal para o grupo entrar.

Naturalmente, Lagarto Sacerdote não entendia a fala dos goblins mais do que os outros. Mas a língua deles soava muitas vezes como uma criança fazendo birra, e o significado era geralmente o mesmo:

Quero isso. Me dê. Foi ele. É culpa dele.

Então, o que fazer? A língua ágil silvou uma oração:

— Ó Mapusaurus, governante da terra. Permita-me que se junte à sua manada, ainda que breve.

Esse era o milagre Comunicar, uma obra de telepatia. Pegando emprestado um pouco do poder de seus antepassados, que caçavam em manada, Lagarto Sacerdote foi capaz de entender e se fazer entender.

“Nada pode avançar se os dois lados não se entendem. Geralmente essa magia é utilizada para pregação, mas…”

Isso foi o que lhes dissera ao redor da mesa na pousada na noite anterior, sentado ao lado de Anão Xamã, que se ocupava incansavelmente na costura.

“Acho que será necessário para nós em algum momento aprender algumas palavras da língua dos goblins.”

Essa fora a resposta muito séria de Matador de Goblins. E agora…

— Ufa! De alguma forma, parece que funcionou — disse Anão Xamã.

— Ainda estamos só passando pelo portão. Não baixe sua guarda.

— Não precisa repetir isso.

O anão soltou um leve suspiro. Matador de Goblins lhe lançou um olhar, depois observou seu arredor.

Goblins.

Eles estavam no pátio de um castelo antigo. Em tempos, uma nascente entregara água à área, e banquetes talvez fossem realizados nessa praça de mármore. Mas agora, a nascente estava seca; o lugar estava coberto de neve, todos os sinais de gramas e árvores desapareceram do jardim, qualquer visão de cavaleiros ou nobres já se foi. Agora era a alçada dos goblins, e como tal, se tornara um aterro coberto de sangue e sujeira.

— Essa é uma fortaleza de anões da Era dos Deuses? Olhe o que aconteceu com ela…

Para alguém que amava aventura e o desconhecido tanto quanto Alta-Elfa Arqueira, esse sussurro aflito era compreensível.

— Eles não possuem ideia do quão valioso é…

— Mas, olhe para todos eles — disse Sacerdotisa, mordendo os lábios na tentativa de suprimir o tremor em sua voz. — Temos que fazer algo sobre isso…

Foi uma baita sorte os goblins as verem apenas como oferendas lamentáveis. Os monstrinhos sabiam quão facilmente tais prisioneiras poderiam ser colocadas para chorar e choramingar, não importando o quão orgulhosas parecessem.

A horda de goblins ultrapassava em muito as dezenas.

Os capangas goblins estavam por toda parte: o jardim, sobre os muros, a torre de vigia e as ameias. Cada um deles tinha equipamentos ruins — ainda que provavelmente pareciam do mais elevado aos olhos dos goblins — e cada um estava observando atentamente os recém-chegados.

Seus olhares possuíam lampejos de curiosidade e luxúria, mas a maioria deles estavam cheios de forme aterradora. Os olhos de um animal, de uma besta sem cérebro, teriam sido melhores. Ao menos criaturas selvagens não olhavam com tanta malícia e ganância.

— ……

Sacerdotisa se esqueceu dos esforços para proteger Esgrimista Nobre de seus olhos; ela abraçou a outra garota com mais força. Ela sabia por experiência que só iria encorajar os goblins, mas fez mesmo assim.

— ……

Nesse meio tempo, Matador de Goblins estava observando cuidadosamente o ambiente por debaixo do capacete. A geografia, a arquitetura: se ele não tomasse nota de tudo, então ele estava quase certo de que morreria em o que quer que poderia tentar.

A morte quase não o preocupava; mas o que ele não suportava era pensar que esses goblins ainda continuariam a trabalhar o seu mal.

— GORARA.

— Hum. Vamos. Ele disse para segui-lo — disse o lagarto, indo atrás do goblin.

— Claro, mestre sacerdote. Vamos, homem de lata.

Com o incentivo de Anão Xamã, Matador de Goblins ergueu a vara da jaula.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!