MdG – Volume 5 – Capítulo 5 (Parte 6 de 11)

Tocando a ponta do nariz com a língua comprida, Lagarto Sacerdote disse a Matador de Goblins: — Presumo que não se importa se cuidássemos dos machucados de qualquer ferido que encontrarmos, certo?

— Guarde seus milagres — respondeu Matador de Goblins. — Não importa o que faça, não vai haver nenhuma prisioneira com condição boa o bastante para se juntar à batalha.

— De fato, é um bom ponto — disse o lagarto, fazendo aquele gesto estranho com as mãos.

Quando partiu, ele sussurrou: — Compreendo como se sente, mas talvez dessa vez a emoção deva ser deixada para depois.

As orelhas da elfa captaram o murmúrio.

— Não acho que seja suficiente apenas dizer que não temos outra escolha e deixar isso passar — disse ela depois de uma pausa, com o rosto amuado. Matador de Goblins ficou diante dela silenciosamente, com os braços cruzados.

Matador de Goblins sentia que algo estava errado — em parte devido ao “goblin sacerdote”, uma coisa horrível e aparentemente contraditória, se é que alguma vez houve um — mas as prisioneiras eram mais preocupantes. Supostamente, nenhuma garota fora raptada da aldeia. O que significava que elas muito provavelmente foram trazidas aqui de outra aldeia que os goblins invadiram.

— …

Então, os goblins haviam forçado as prisioneiras a andar por toda aquela estrada nevada? Isso era possível?

Quão grande era a área em que os goblins operavam? E era esse “goblin paladino” que os liderava?

— Não gosto disso — disse Matador de Goblins.

Ele falou consigo mesmo, mas Alta-Elfa Arqueira respondeu mal-humorada: — Você é quem está dizendo. — Então, sem fazer qualquer esforço para esconder suas orelhas se contraindo descontentes, ela olhou para sua máscara e disse: — Por que trouxe essa garota junto?

O capacete deixava sua expressão ilegível como sempre, mas ele respondeu calmamente: — Porque precisamos dela.

— Oh, precisamos, é mesmo? — disse a patrulheira, cuspindo uma pequena risada zombeteira. — Bem, talvez devêssemos lhe dar uma surra então?

— Em todo o caso, se não sairmos daqui, não poderemos voltar para casa. E — acrescentou ele, calmamente como sempre — há goblins para matar. Nós assumimos o desafio. Vamos ter ou não sucesso.

— Não… não é hora de ficar falando assim…!

— …Eu sei.

Mas.

— Acho… que entendi isso.

Sua voz parecia estranhamente cansada. Alta-Elfa Arqueira de repente acabou não conseguindo falar.

— ……

Orcbolg?, sussurrou ela silenciosamente para ele.

Talvez a palavra não o tenha alcançado. Ele soltou lentamente um suspiro. — Eu vou ficar de guarda. Quando acabarem de checar as prisioneiras e ajudar alguém que consigam, preparem seus equipamentos.

— …Aqui?

— Isso mesmo.

— ………

— Não acho que vá conseguir lutar muito vestida assim — disse ele à elfa.

Especificamente, em uma prisão subterrânea rodeada por resíduos, podridão e cadáveres.

Alta-Elfa Arqueira murmurou de acordo. Ela pressionou o dedo na testa como se afastando uma dor de cabeça. — Só para ter certeza de que entendi isso: aqui?

— Isso mesmo.

— E você quer que mudemos nossas roupas?

— Isso mesmo.

Argh, pelo amor dos deuses. Orcbolg não mudou nem um pouquinho, não é?

— Me desculpe — disse a arqueira com um suspiro — mas elfos possuem uma coisa chamada modéstia.

— Se a incomoda, use isso como cortina.

— Ergah?! …Ugh! Seu!

Ele pegou um cobertor da jaula e jogou até ela; ele caiu na sua cabeça.

A expressão de raiva de Alta-Elfa Arqueira sumiu por um segundo; ela logo tentou jogar de volta, mas era tarde demais. Matador de Goblins já estava de costas, de qualquer forma.

Alta-Elfa Arqueira começou a amarrar o cobertor firmemente ao pescoço, então trocou as roupas por baixo dele. Ela pôde deixar de se sentir patética.

Ela descartou alegremente seus trapos sujos que usara com o pretexto de aventureiras cativa, os substituindo por seu traje habitual de caçadora. Ela vestiu sua armadura para mantê-la segura; pendurou o arco ao redor das costas; e quanto a roupa interior… bem, esqueça isso. Ela não entendia porque alguém iria se preocupar com isso mesmo.

Oh, meu… Do que estou zangada mesma?

Isso não parecia como ela. Não era nada como ela. Ela sentiu lentamente sua raiva diminuir.

Hum?

Alta-Elfa Arqueira parou, mistificada, enquanto inspecionava sua armadura. Orcbolg lhe dera indiferença, e ainda assim, ela dificilmente poderia mesmo estar chateada com isso. Em parte, era porque já estava acostumada com isso, mas…

Se fosse só isso, eu não me importaria com ele me ignorando em relação a ela, tampouco.

— Hrrm… — As orelhas de Alta-Elfa Arqueira sacudiam refletidamente enquanto ela considerava esse enigma.

Então… há algo diferente quando se trata dela e Orcbolg.

O que poderia ser? Como era diferente?

Ela revirou esses pensamentos várias vezes em sua cabeça até que eles ameaçassem provocar um redemoinho.

Ela ainda não encontrou uma resposta; o que veio a ela, em vez disso, foi a única palavra que os dois pareciam compartilhar.

— Goblins.

Goblins, goblins, goblins, goblins, goblins, goblins!

Alta-Elfa Arqueira se viu tremendo; a palavra ressoou em sua mente como uma maldição.

— Ahhh, droga! Isso não é bom…! — Ela bateu nas bochechas com as mãos, então esfregou o canto dos olhos. Ela não parecia se concentrar.

Ela não conseguia fazer esses sentimentos irem embora.

Ela não conseguia encontrar uma resposta.

As coisas estavam piores.

Sim, mas.

— ………Só existe uma coisa a fazer, não é? — Ela soltou um gemido, com as orelhas se contraindo, então retirou a cabeça por debaixo do cobertor.

Matador de Goblins ainda estava de pé no topo da escada, mantendo um olhar atento na porta, com o equipamento de prontidão.

Alta-Elfa Arqueira disse baixinho pelas costas: — Sinto muito, Orcbolg. — Ela abriu a boca, mas acabou percebendo que não poderia continuar falando. Ela procurou por palavras, depois tentou novamente. — Eu… perdi um pouco a cabeça.

— Isso acontece — disse Matador de Goblins, sem se virar. — Com você, com aquela garota, comigo.

Suas palavras eram tão calmas como sempre, até mesmo um pouco frias. Alta-Elfa Arqueira sentia suas bochechas relaxarem quase em um sorriso.

— Até você, Orcbolg?

— Isso mesmo.

— Acho que nunca vi.

— É mesmo?

— Com certeza.

— Entendi — murmurou ele sem muito interesse, então virou a cabeça.

Foi só por um instante. Alta-Elfa Arqueira se lembrou de algo que Sacerdotisa dissera a ela uma vez. Como quando ele estava pensando — quando ele ia dizer alguma coisa — ele ficava em silêncio.

— Vou dizer a todos os outros — disse ele calmamente. — Se acha melhor.

Alta-Elfa Arqueira pôs a mão para fora do cobertor e deu um aceno tranquilizador, como se dissesse Está tudo bem.

— Nem. Eu mesmo digo a eles. — Ela pausou, depois disse: — Obrigada.

Ela puxou o cobertor de lado, satisfeita que o movimento escondeu seu rosto naquele instante; escondeu o sorriso gentil que surgiu nele.

— Você é surpreendentemente… atencioso, Orcbolg.

— …É mesmo? — murmurou Matador de Goblins. Então disse: — Seja rápida. Quero que as outras garotas se mudem também.

— Sim, claro.

Ela não podia ver o rosto dele; e ainda assim, Alta-Elfa Arqueira achava que sabia qual era sua expressão.

Isso era o suficiente para si.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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