MdG – Volume 5 – Capítulo 5 (Parte 9 de 11)

Até mesmo goblins são inteligentes o bastante para trancar uma porta. Incluindo a de metal enorme que encontraram no canto do labirinto de pedra. Havia até um banquinho posto nas proximidades, a maçaneta estaria fora do alcance dos goblins diminutos.

— Certo, hora de trocar — disse Anão Xamã.

Alta-Elfa Arqueira se aproximou para testar a porta. — Claro, deixa isso comigo… é o que eu gostaria de dizer, mas não sei se estou tão confiante…

Primeiro, ela arranhou a superfície da porta com uma flecha ponta-broto que pegou da aljava. Confirmando que não havia nada ali, ela focou suas orelhas grandes, atenta para qualquer som dentro do cômodo.

Ela não ouviu nada se movendo. Tendo em conta a umidade e poluição desse esconderijo goblin, era surpreendente não ouvir nem um rato correndo. Goblins sem dúvida achavam os roedores bons lanches; um assunto que ela não queria pensar, embora tivesse que admitir que estava grata pelo fato.

— Estou quase certa de que não há nada dentro… Acho — disse ela.

— Abra — instruiu Matador de Goblins. — Destrua a porta se precisar.

— Poderíamos, no pior dos casos — disse Lagarto Sacerdote. Ele juntou as mãos em um gesto estranho, depois pegou uma presa de dragão que poderia atuar como catalisador. — Não queremos nenhum goblin se esgueirando por trás, então atuaremos como guardas.

— Tem razão — respondeu Anão Xamã, e os três homens circundaram as mulheres.

Alta-Elfa Arqueira pegou um galho tão fino quanto uma agulha de algum lugar da roupa e começou a procurar pelo buraco da fechadura. Seus movimentos eram curtos, mas bem desajeitados. Ela era uma patrulheira, não qualquer ladra ou batedora. Um aventureiro na cidade lhe ensinara seu desarmamento de armadilha simples e como abrir uma fechadura; junto com um pouco de jogos de azar. Verdade, tudo isso fora muito útil para satisfazer sua própria curiosidade…

— Cuidado agora, está bem? — Ela deu uma olhada para o lado enquanto trabalhava, estalando a língua. — Se ficar bem perto de mim assim, você pode ser pega por uma armadilha que ative.

— Mas também vou poder te dar os primeiros socorros de imediato — disse Sacerdotisa com um sorriso animado. Ela se sentara no chão ao lado de Alta-Elfa Arqueira. Ela estava apertando firmemente seu cajado de monge para que pudesse começar a rezar a qualquer instante.

— Honestamente, gostaria de ter o milagre Precognição ou Sorte.

A preocupação com sua amiga Alta-Elfa Arqueira era apenas metade do motivo. A outra metade era o desapontamento com sua própria impotência.

— Bem, não é culpa sua. É a deidade quem decide quais milagres você tem, não é?

Foi muito gentil de Alta-Elfa Arqueira pontuar esse fato, mas não poder fazer nada para ajudar ainda doía.

Talvez a elfa tivesse noção do que passava pela cabeça de Sacerdotisa, pois com um fiapo de suor de nervosismo, ela disse: — Poderíamos realmente usar um batedor real aqui…

— Hum — disse Sacerdotisa — mas você é mesmo tão gentil em procurar armadilhas e abrir fechaduras para nós…

Estamos contando com você, está bem?

Com isso, as orelhas de Alta-Elfa Arqueira balançaram modestamente.

Agora, ela teria que se concentrar. Os goblins poderiam não ser inteligentes o suficiente para criar armadilhas muito sutis, mas uma fortaleza de anões deixada da Era dos Deuses deveria ser o lar de bem mais truques do que os pequenos demônios colocaram lá por si mesmos.

Uma fechadura que borrifava gás venenoso, ou uma maçaneta que ficava insuportavelmente quente eram as melhores coisas que poderiam esperar. Algumas portas apagariam a memória de qualquer um que as usassem sem entoar a magia correta.

E se tais destinos brutais os esperavam ou não, a crueldade dos goblins era uma questão de fama…

— ……

Alta-Elfa Arqueira olhou por cima dos ombros. Esgrimista Nobre olhava vagamente para o nada.

Ela está mesmo bem?

Não, claro que ela não está bem. Alta-Elfa Arqueira sabia que não poderia imaginar as coisas terríveis que essa garota passou. Era um milagre ela ter mantido a sanidade.

Ahh, não há tempo para isso agora. Se concentre, se concentre!

Ela mordia os lábios, focando seus dedos em verificar o buraco da fechadura.

Depois de alguns minutos, ela sentiu algo ceder, e a fechadura destrancou com um clac.

— …Ufa. Consegui.

“Ótimo trabalho” foram as únicas palavras que Matador de Goblins disse. Enquanto a elfa ria e estufava o peito, ele levantou a perna e deu um chute na porta.

Não havia motivo.

— Parece seguro o bastante. — Lagarto Sacerdote praticamente deslizou para frente do grupo. Chutar a porta aberta só no caso de haver alguma coisa dentro era uma tática tão velha quanto o mundo.

— Bem, claro que está seguro. Eu verifiquei, não foi?

Você mesma nos disse que não sabia o que estava fazendo — resmungou Anão Xamã, seguindo atrás da triunfante Alta-Elfa Arqueira.

Matador de Goblins, que continuava observando o corredor após arrombar a porta, assentiu para Sacerdotisa.

— Ah, luz — disse ela. — É para já.

— Obrigado.

Ela pegou uma tocha de sua bolsa e acendeu assim como fizera tantas vezes antes.

Uma fortaleza de anões. Noite adentro, uma nevasca uivando em volta; nem mesmo a luz das estrelas os alcançava. Os goblins podiam ver bem no escuro, então essas condições não os importavam, mas não para os humanos. Ao menos, necessitariam de fogo enquanto exploravam os armazéns…

— Aqui, pegue.

— ……

Sacerdotisa soltou um suspiro, com uma chama vermelha dançando na tocha em sua mão. Ela oscilou quando sua respiração passou.

Então ela se virou e foi até Esgrimista Nobre, que estava olhando atentamente para ela.

— Segure isso, está bem?

— Segurar isso… o quê…?

Esgrimista Nobre ficou surpresa ao se ver falando; ela não parecia pensar que Sacerdotisa poderia se referir a ela. Mas Sacerdotisa insistiu, calma e silenciosamente: — A tocha. Tome conta dela, está bem?

— ……

Esgrimista Nobre não disse nada, só ficou olhando para a luz, mas Sacerdotisa pegou sua mão e a envolveu no cabo da tocha.

Esgrimista Nobre estremeceu ao ver a chama diante de seus olhos. Quando ela olhou em volta de forma hesitante, Sacerdotisa pensou ter visto, ao mesmo tempo, uma garotinha assustada.

— ……

A garota abriu a boca; um som baixo escapou dela como se estivesse tentando dizer alguma coisa, e então ela segurou a tocha com as duas mãos, olhando para a chama.

— ………Entendi.

Isso foi tudo que ela disse, em um sussurro, e depois entrou no depósito.

O corredor ficou escuro mais uma vez. Sacerdotisa, no entanto, pôde sentir um sorriso surgindo em seu rosto.

Matador de Goblins se aproximou dela com seu habitual passo quase violento.

— Por que pediu a ela para segurar?

— Só… um palpite.

A pergunta foi bastante no ponto, mas a reposta de Sacerdotisa foi gentil. Essa hora ela notou de sua voz que ele não estava zangado.

— Achei que ela deveria estar se sentindo… bem, entediada, e eu não queria isso.

— É mesmo?

Presumo que você tem um plano, de qualquer forma…

Assim pensou Sacerdotisa, mas não disse.

Ser jogada repentinamente em um lugar novo, correndo de um lugar para outro. Ficar por aí olhando vagamente, sem saber o que deveria fazer. Isso; isso era algo que Sacerdotisa entendia muito bem. Ela era uma órfã que foi criada no tempo, afinal. Uma criança abandonada.

— Não percebeu?

— Percebeu o quê?

— Quando lhe dei aquela tocha, ela ficou um pouco envergonhada.

— É mesmo…?

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

1 Comentário

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!