PA – Capítulo 131

Malícia

 

 

Quando as autoridades não conseguiram mais ocultar a notícia que as pós-humanas haviam escapado, os moradores do Jardim do Éden passaram o dia aterrorizados, como se os fugitivos de uma penitenciária do Rio estivessem se escondendo em seus quintais. Se alguém ficasse de pé junto à janela, ouviria os gritos das tropas em marcha nas ruas, bem como as sirenes das muitas ambulâncias. De vez em quando, o som de vidro quebrando podia ser ouvido e a cacofonia de barulho já durava o dia todo.

Lei, que tinha obedientemente ficado em casa como mandado, não tinha ideia do que havia acontecido lá fora. Ele caminhou ansiosamente pela casa o dia inteiro até a noite chegar. Quando Toni finalmente voltou, Lei visivelmente suspirou aliviado antes de recebê-lo rapidamente.

— Toni, o que aconteceu? Você disse que ia salvar as pós-humanas, você conseguiu?

Toni usou os dedos para pentear o cabelo para trás. Mal havia qualquer expressão em seu rosto bonito e imaculado.

— Sim, elas já escaparam.

— Que ótimo! Isso explica o pandemônio lá fora… Hum, você parece infeliz? — Lei perguntou cautelosamente.

Toni massageou o próprio rosto e respondeu.

— Não, mas temos que sair do Jardim do Éden esta noite.

Sendo o puxa-saco habitual que era, Lei ficou aturdido por um breve momento antes de concordar rapidamente. Depois de alguma consideração, decidiu não perguntar se eles iriam realmente deixar que as pós-humanas aprontassem o que quisessem.

Toni se sentou em uma cadeira e olhou para cima. De repente, ele falou com uma voz um pouco trêmula e um tom indescritivelmente ambíguo:

— Ah… eu tenho que agradecê-la por me mandar embora. Eu estive tão receoso e excitado o dia inteiro…

Enquanto isso, Sanji ficou bastante intrigada por conseguir mandar Toni embora com apenas algumas palavras. Ela realmente achou que seria mais difícil. Porém, não queria perder tempo pensando nisso, porque, de qualquer maneira, elas não voltariam para a residência de Guang.

— Resumindo, essas duas equipes vão se concentrar em locais onde os recursos anti-radiação são armazenados. Xueqin irá informá-las sobre a localização exata. Seria melhor se vocês conseguissem capturar e interrogar algumas pessoas, para não deixar para trás algo crucial…

As 43 mulheres foram agrupadas em dez equipes menores. Sanji tentou balancear cada equipe de forma que as habilidades das mulheres complementassem umas às outras cobrindo as fraquezas. Os alvos eram vários locais estratégicos da cidade. Elas também descobriram como poderiam se comunicar e obter ajuda entre as equipes.

Quando seus planos foram finalizados, já era bem tarde.

— A operação durará duas horas. Depois de duas horas, todas as equipes devem se reunir no ponto de encontro. Por favor, não se esqueçam, segurança em primeiro lugar.

Sanji ficou na porta enquanto assistia as várias equipes partirem. Quando cada uma delas passou por ela, assentiram e sorriram ou acrescentaram uma observação rápida. Cada uma delas carregava uma arma laser na cintura. Na pior das hipóteses, a arma iria garantir que não seriam capturadas vivas. Mesmo que houvesse 43 pessoas agora, Sanji se perguntou se ainda haveria esse número quando se encontrassem novamente.

Alguém parou ao lado dela e Sanji notou que era Xueqin, que ainda estava sendo carregada pelo acompanhante. Depois de ter sido usado por um dia inteiro, o acompanhante estava bem mais baixo e as pernas de Xueqin arrastavam no chão. Ela não parecia se importar, mas ficou um pouco curiosa quando olhou para Sanji.

— Por que você não vem conosco?

— Eu vou ser honesta com você, — Sanji olhou nos olhos da mulher sinceramente. — Eu disse a vocês que não fossem ao Laboratório do Jardim do Éden, lembra? Bem, vou verificar lá primeiro.

— Não é perigoso para você ir sozinha?

— Vou apenas observar pelo lado de fora, não deve ter nenhum problema. — Sanji sorriu apaticamente.

Xueqin murmurou para si mesma antes de assentir e dizer:

— Tome cuidado.

Então, saiu com Juli. Quando elas estavam bem longe, Sanji se virou e Lina colocou uma carta em sua mão.

— Eu fiz o que você pediu, e peguei a carta depois de três horas. Dê uma olhada…

— Obrigada. Por favor, tenha cuidado lá fora. — Sanji segurou sua carta diário e abraçou Lina.

É como se nunca mais fossemos nos encontrar…

Sanji suspirou e subiu as escadas. Abriu todas as portas até encontrar um banheiro. Se realmente fosse morrer esta noite, queria cheirar bem quando estivesse morta.

A banheira de cerâmica bege era quase do tamanho de uma pequena piscina. Mesmo com várias torneiras enchendo a banheira de água quente, demorou mais de dez minutos. Quando o vapor encheu o banheiro, Sanji tirou a roupa e pulou na banheira. Quando sua pele tocou a água morna pela primeira vez, ela imediatamente soltou um refrescante “ah”. Era tão confortável! Afinal, a última vez que tomou banho de verdade foi séculos atrás…

Enquanto apreciava a água morna, pegou suas calças e tirou uma caneta e um pedaço de papel do bolso. Se inclinou sobre a borda da banheira e decidiu deixar algumas palavras para as outras.

“Olá a todas. Eu menti. Haha! Eu estou indo para a torre sozinha. Supostamente, se ela for destruída, o vidro também será destruído. Xueqin, por favor, não fique brava quando ler isso. Quando você ler esta carta, já terão se passado duas horas. Espere por mim no ponto de encontro por um tempo…”

Sanji reconsiderou suas palavras e riscou “um tempo”, e substituiu por “trinta minutos”.

“Se eu não tiver retornado até lá, por favor, vão embora. Deixem o Jardim do Éden e não pensem mais em destruir o vidro.”

Sanji mordeu a caneta e finalmente acrescentou: “Atenciosamente, Sanji.”

Isso deve ser o suficiente. Sanji dobrou o papel e guardou de volta no bolso de suas calças.

Splash!

Ela mergulhou na água e brincou por um tempo. De repente, se lembrou de algo e invocou sua carta diário. Ela nem sequer tinha lido corretamente depois de pegar a carta que Lina a entregou.

Os eventos registrados nessas três horas eram bastante insignificantes. Toni comeu, conversou e dormiu. As conversas não eram nada interessantes. Eram apenas conversas aleatórias com as várias jovens mulheres.

“7:29 da manhã, recuperada por uma garota super fofa.”

Quando Sanji viu a última frase, sabia que não tinha adquirido nenhuma informação útil. Ela leu as palavras mais uma vez, como se não estivesse satisfeita com o resultado. Ela não conseguia ignorar a sensação de que algo estava errado, mas, mesmo depois de ler cada palavra que Toni falou, não conseguiu encontrar nada suspeito.

Sem quaisquer outras opções, Sanji guardou sua Carta Diário, que continuava repetindo a frase “se eu estivesse na mesma banheira com aquela garota super fofa”. Sanji encontrou uma garrafa de sabão em gel e cheirou a fragrância enquanto derramava na água. Então, soltou um suspiro de prazer.

Depois de 20 minutos, ela relutantemente saiu da banheira. Encontrou um conjunto limpo de roupas de seu baralho e as vestiu. Verificou os itens que tinha antes de finalmente sair da casa de Guang.

O ponto de encontro foi sugerido por Xueqin e era em uma fábrica interditada que logo seria reconstruída. Sanji colou a mensagem que tinha escrito na porta da fábrica antes de correr em direção à torre. Usando sua velocidade máxima, chegou ao local em menos de dez minutos. Sanji notou que a atmosfera ao redor ficou repentinamente mais assustadora. Bem na frente dela, a torre negra se erguia como uma gigantesca e sinistra besta.

Ela olhou ao redor do lugar e não viu ninguém por perto, exatamente como tinham falado. Espaço era algo escasso no Jardim do Éden, mas não havia sequer um prédio perto da torre. Havia apenas uma névoa espessa e pesada circulando o lugar. O misterioso desenho da torre e a fachada fria de metal preto destacavam-se da arquitetura geralmente leve e adorável do Jardim do Éden.

— Estranho. Não há realmente ninguém vigiando este lugar? — Sanji levantou a guarda quando se aproximou da porta, em constante alerta ao perigo.

Ela imaginou que uma estrutura metálica plana de dez metros que parecia móvel fosse a porta. A torre inteira parecia um pouco mais resistente do tinha imaginado. Sanji caminhou com cuidado até a porta de metal e percebeu que não havia sequer uma única fenda que indicava uma abertura.

— Como é que eu vou entrar? — Frustrada, ela chutou a porta, mas a mesma continuou imóvel.

Sanji ativou sua [Censura Mosaico] e tentou abrir a porta. Alguns pedaços de metal do tamanho de punhos caíram no chão, expondo a estrutura interna da porta, que tinha pelo menos três metros de espessura. Se tivesse que usar esse método para entrar, provavelmente demoraria um mês.

— Por que esta porta é tão espessa? — Sanji franziu o cenho. — Se a porta é tão espessa, quão grossas são as paredes? O interior da torre não parece tão grande.

Sanji já não sabia mais o que fazer enquanto caminhava ao redor da entrada. De repente, seus olhos pararam sobre algo. Ela notou que uma das peças de metal que compunham a parede era de uma cor mais clara e estava levemente saliente. Sanji tentou puxá-la. Estava quase exercendo toda a sua força quando tocou alguma coisa e, de repente, ouviu uma campainha soar.

— Ding dong…

O som da campainha tocou algumas vezes. A noite estava tão quieta que parecia que o barulho podia ser ouvido por todo o Jardim do Éden. Enquanto a campainha ecoava, Sanji parou, olhando aturdida.

A porta, que ela tinha se esforçado para tentar destruir, estava se abrindo lentamente. Fazia um som profundo e estrondoso, como se tivesse se passado anos desde que tinha sido aberta pela última vez.

O que? Era só apertar a campainha para abrir a porta?

Sanji olhou fixamente por alguns segundos antes de tirar sua arma e olhar dentro da torre. Estava totalmente escuro lá dentro, ela não conseguia ver nada sem uma fonte de luz.

Sanji cerrou os dentes e entrou. Uma vez dentro, a porta se fechou novamente com um som estrondoso, como se detectasse sua presença. Sem a última gota de luz natural do mundo exterior, Sanji não conseguia nem ver os dedos. Ela deu dois passos na escuridão e uma luz brilhante de repente assaltou seus olhos. A mulher fechou os olhos e, quando os abriu, ficou espantada.

— Que merda é essa?

Berjkley
Analista de Sistemas, Game Developer, Mestre de RPG. Gosta de Doctor Who, Não gosta de Vampiros Purpurinados.

5 Comentários

  1. Não entendo como a prota pode continuar gostando de banho quente depois de ter passado pelo inferno de calor. Obrigado pelo capítulo

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