RdI – Capítulo 19

Caverna

 

— Essa é a primeira vez que eu encontro outra pessoa que também é temida pelas criaturas sombrias. — Amira disse olhando seriamente para Nilo. Ela sentia que algo diferente fosse acontecer, mas não estava realmente esperando algo assim.

— Bem… — Nilo disse confuso olhando com um certo desgosto para o sangue e os animais mortos. — Essa é a primeira vez que eu vejo criaturas sombrias pessoalmente.

Amira o avaliou mais um pouco, mas decidiu não insistir no assunto. Nilo com certeza sabia por que as criaturas sombrias temiam ele, mas desde que Amira não lembrava a razão, ele não quis tocar no assunto agora. Ainda havia tempo.

— Podemos estabelecer uma base aqui por enquanto. A caverna é rasa, mas é suficiente para nos dar um teto, e desde que esse era o território desses caras, não deve haver outra ameaça maior por perto. É perto da água e não é muito longe da praia.

Amira disse com praticidade. Nilo torceu o nariz para o lugar. O forte cheiro pungente de sangue, ossos e húmus o incomodava bastante enquanto ele estivesse nessa forma. Mas não tinha por que discordar dela.

Próximo ao fim da tarde, os dois tinham terminado de limpar todo o entulho deixado pelos inquilinos anteriores. Nilo, que corria rápido e longe como se não fosse nada, levou para longe as carcaças dos animais. enquanto Amira providenciava palha das palmeiras para improvisar algumas esteiras onde eles poderiam dormir em cima, e ervas aromáticas para dispersar o cheiro de podridão do lugar.

Amira acendeu uma fogueira e jogou as ervas dentro, deixando uma fumaça perfumada cobrir o ambiente e espantando a camada sólida de insetos que estava se agrupando com a noite. Tinha sido uma boa ideia, já que pelas altas horas da noite começou a chover forte, e ao menos estavam abrigados.

Logo pela manhã, Nilo acordou com o cheiro de peixe assado vindo do lado de fora. Amira havia pegado alguns no rio enquanto tomava banho, e estava os assando no espeto.

Os dois estavam pela hora da morte de tanta fome que estavam sentindo. Amira também havia pegado água potável em uma nascente pouco acima do curso do riacho, que era a mais limpa e doce, já que as águas se misturavam, próximo ao mar, assim não era possível bebê-la. Para carregar, ela tinha usado alguns cocos que havia furado com um canivete que Nilo tinha no bolso. A faca de cozinha não seria capaz de acompanhar toda aquela movimentação.

Com tudo caminhando bem, Amira não deixava de pensar. O que mais intrigava ela, era que Nilo sabia do poder que o medalhão tinha. O “medalhão de Nara”… um crivo dimensional, como havia chamado, era a única chance que os dois tinham de sair daquela ilha. Mas nenhum dos dois sabia como fazer o poder funcionar, e não tinham idéia de como usá-lo.

Amira passou o dia tentando encontrar outras coisas para comer, que não fossem mangas, coco ou peixe. Encontrou apenas algumas outras frutas, como mamão e bananas, mas Nilo estava começando a resmungar sobre a falta de “carne de verdade”. Não dava para comer as criaturas sombrias, por causa da contaminação maligna em seus sangues, então ele só podia esperar com a sorte de Amira encontrar alguma coisa.

Em dois dias, o acampamento improvisado já estava em perfeitas condições para morar. Então, no tempo livre os dois apenas sentavam-se de frente um para o outro tentando descobrir como fazer o medalhão funcionar. Ficar naquele lugar esperando Franz aparecer era quase como assinar um atestado de suicídio.

Amira estava muito ansiosa para conversar com Nilo, mas às vezes ele parecia estar extremamente desconfortável com a presença dela. Além disso, ela tinha receio de piorar o sofrimento que ele já tinha. Aliás, iniciar conversas e fazer amigos não era exatamente o forte dela.

Na manhã seguinte, quem havia sido o primeiro a acordar, havia sido Nilo. Ele provavelmente nem havia dormido direito. Amira o encontrou em cima de uma árvore, a cinco metros de altura, que até mesmo ela teria algum trabalho para subir.

Ele olhava distraído para lugar nenhum. A luva que costumava usar estava apoiada em sua perna, o que aumentou ainda mais a curiosidade da garota, sobre o que ele tanto escondia.

Como chamá-lo não adiantaria em muita coisa, porque sem dúvida ele não iria escutar de tão distraído, ela colocou dois dedos na boca, e soltou um assobio alto. Assustado com o barulho, Nilo levantou-se de uma vez do galho onde estava sentado, desequilibrou-se e caiu da árvore.

Amira sentiu o coração quase sair fora do peito. Daquela altura, ele com certeza iria sair muito machucado, mas ele fez algo que até mesmo ela, com todas as suas qualidades, toda a força e agilidade, não conseguiria fazer tão facilmente, nem se quisesse, pelo menos daquela altura.

Ele simplesmente caiu em pé, como se tivesse dado um pulo de uma altura insignificante. Aproveitando-se da surpresa de Amira, colocou a luva de volta em sua mão, antes que ela visse o que havia lá. Estava usando o fato de que ela não se lembrava muito bem dele, para contar com calma o seu problema. Afinal, faltavam apenas dois dias, e mesmo que ele não contasse a verdade para ela, ela iria acabar descobrindo.

— Como você fez isso? Você estava a mais de cinco metros do chão… não se machucou?

— Não, tá tudo bem, pode deixar que eu sobrevivo. — Nilo respondeu meio rabugento, virando-se e caminhando em direção à praia.

— Mas o que você fez não é normal! Não foi uma coisa que qualquer um faria…

— Não me diga. — dessa vez ele pareceu um tanto debochado — Que bom que eu não sou qualquer um. Você também faz coisas que as outras pessoas não conseguem, ou não faz?

— Não… quero dizer, faço, mas eu pelo menos sei que eu não sou igual aos outros…

Nilo não continuou a conversa. Mesmo assim, Amira o seguiu até a praia, e sentaram-se com o sol da manhã, e o forte sopro salgado que vinha do mar. Amira esperava ansiosamente pelo momento em que Nilo se sentiria à vontade para falar sobre ele mesmo, mas ele parecia estar evitando isso ao máximo.

— Não entendo… — ele começou

— O que? — Amira rebateu ansiosa.

Ele então se virou para ela, mas não a encarou, enquanto organizava as idéias sobre o que esteve pensando quase todo o tempo em que esteve na ilha com ela.

— Bem… é que a última vez que eu te vi, foi na floresta, quando você tinha apenas cinco anos de idade, e agora, você já não é mais uma criancinha e ainda tem uma história…

— E o que é que tem isso?

— Considerando que… pelo menos na minha perspectiva… faz apenas cinco dias que eu te vi… e para você já se passaram quase 10 anos. Já reparou que a matemática não bate aqui?

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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