RdI – Capítulo 25

Alucinações

 

Amira segurou o próprio medalhão caído entre as mãos com firmeza. Não se lembrava de tê-lo tirado do pescoço. Toda aquela confusão em que ela estava metida era culpa do poder que supostamente a joia tinha.

A ambição de seu tio pelo poder do crivo tinha matado seu pai e talvez sua mãe verdadeira, além de muitas outras pessoas inocentes, por uma coisa que achava tão fútil e desnecessária quanto a briga por poder.

Em um impulso impensado, ela arremessou a jóia contra a grande pedra à sua frente, como se isso fosse o suficiente para livrá-la de seus problemas. Mas de repente tudo começou a mudar de novo.

Uma enorme rachadura partiu a pedra ao meio a partir do lugar onde a jóia havia batido, e uma explosão de luz e escuridão cobriu toda a área. O céu, junto com o sol nascente e todas as suas nuvens sumiram, e não havia mais nada além da pedra rachada e o chão cercados por um vazio escuro.

As metades da rocha começaram a se separar do nada e atrás delas, grandes pilastras de mármore branco começaram a emergir do chão, formando um amplo corredor, e ao redor dela um magnífico pórtico se formou. No lugar que deveria estar o teto podiam-se ver as estrelas reunidas de uma forma tão bela e precisa como se todo o céu de verdade estivesse naquele pequeno espaço. O final do corredor era invisível graças há uma densa névoa que vinha dos espaços entre as pilastras, que também eram embaçados.

Ela aproximou-se de uma das pilastras, e viu que havia um anjo esculpido em alto relevo, e em cada uma delas havia um diferente, e mesmo sendo apenas esculturas, eram tão perfeitos que podia pensar que eles iriam sair voando a qualquer momento.

Ela seguiu o caminho formado pelas pilastras, se confundindo com a névoa. O corredor era tão grande que parecia não ter mais fim, e depois do que pareceram horas caminhando, a névoa desapareceu. Um arco colossal surgiu formado por duas estátuas de imponentes cavaleiros alados armados com lanças, com mais de quinze metros cada uma.

Receosa, caminhou para onde o arco levava. Lá, um amplo salão de mármore de todas as cores, formado por outros arcos iguais ao que ela tinha atravessado surgiu. Era muito maior que a clareira onde ficava a sua casa na árvore. E cada uma das estátuas era diferente uma da outra, e tão reais e perfeitas como se fossem de verdade.

Uma elevação no meio do salão, feita por três pequenos degraus, levava a uma magnífica escadaria em espiral que seguia ao redor de uma pilastra mais larga que cinco das que compunham o corredor e também era de mármore, que subia tão alto, que não se podia ver a onde ela iria parar. Levada pela curiosidade, ela seguiu até a escada e começou a subir.

Na parede da coluna, esculturas em alto relevo seguiam à medida que ela subia, como se contassem uma história. Havia desenhos de lutas, de estrelas, de grupos de anjos, de pessoas normais trabalhando, e coisas que nem que quisesse podia entender.

E a escada subia cada vez mais alta, e sem dar a menor notícia de que estava perto de chegar ao seu fim. Do lado de fora, como o “teto” do pórtico, havia várias estrelas e um vazio enevoado. Era como o céu de verdade, mas as estrelas eram grandes demais para serem as de verdade, e vez por outra, Amira via fios de energia quase invisíveis ligando cada uma das estrelas às demais. No começo, ela até pôde pensar ter visto algumas constelações sendo formadas, mas foram surgindo novas estrelas, e então os fios sumiam, e de repente ela não era mais capaz de vê-los.

Grandes cometas, asteróides e corpos celestes circulavam o tempo todo pelo pequeno céu. Pequenas explosões das estrelas eram vistas de longe, fazendo belíssimos shows de luzes e cores, criando ondas de energia e luz.

Quando começou a pensar que já tinha levado mais tempo para subir as escadas do que tinha levado para seguir pelo corredor, finalmente chegou em algum lugar. Outro amplo salão como o de baixo simplesmente apareceu. Era um enorme templo cheio de estátuas de anjos e sem paredes. Era um pórtico, e atrás dos pilares, havia mais pilares, e mais, até onde se podia ver.

Na outra extremidade do templo, havia um gigantesco trono de mármore branco com prata, feito meticulosamente, até nos mínimos detalhes, com fofas almofadas de veludo prateado parecendo tão macias quanto se era possível. O trono era tão largo que podia ser usado como cama. Quando ela ia se aproximando do trono, uma estátua lhe chamou a atenção. E quando ela focou sua atenção sentiu seu coração palpitar.

Era uma estátua de Naomi. Ela tinha certeza. Era tão bonita e bem feita, que Amira podia jurar estar se olhando no espelho com um reflexo exageradamente grande e incrivelmente mais bonito, exceto pelo cabelo, que ondulava até quase os pés. Duas asas magníficas erguiam-se atrás dela, e seu belo vestido arrastava pelo chão.

Ela sorria. Mas era um sorriso tão doce e tão fino, quase como se não estivesse expressando emoção alguma, mas Amira se sentiu acolhida pela imagem de sua mãe. Ela usava a jóia que Amira tinha no pescoço, mas nela não havia o nome Nara. Uma das mãos estava apoiada em seu ombro, e a outra se apoiava na perna. Em sua cintura, estava amarrado um lenço como os que a garota sempre costumou usar.

Amira continuou parada, encarando a estátua, como se esperasse que ela saísse andando, por causa de sua perfeição. E por um longo tempo ficou lá. De alguma forma, agora ela sabia que a mãe estava morta. Não… Amira sentia! E que ela tinha morrido tentando salvá-la.

A garota levantou o braço, e tocou a estátua. Era macia e delicada, como se não fosse apenas uma pedra fria e sem vida, mas do nada ela trincou. Amira afastou-se assustada. E a estátua começou a trincar cada vez mais em outros lugares, a rachar, e começou a desmoronar. Pedacinho por pedacinho.

Primeiro, as asas foram se partindo lentamente, depois os braços, o cabelo o vestido, e finalmente ela ruiu por inteira, virando apenas cacos de mármore. O medalhão era a única parte que tinha ficado inteira, embora trincado e feio.

Tinha acabado. Toda a ilusão que ela estava tendo de que estava vendo sua mãe já não passava de cacos jogados ao chão. Apenas cacos. E a esperança que ela tinha criado de encontrá-la viva, quebrou-se junto com a estátua.

Então os cacos viraram pó e o pó simplesmente começou a ser levado por uma brisa inexistente como se estivesse evaporando e circulando por todo o templo, e sumindo exatamente quando ia passar pelo trono. Mas o trono não estava mais vazio. Era um anjo. Um gigantesco anjo. As asas de seu ocupante cobriam-lhe o rosto, não deixando que ela o visse de onde estava. Ele parecia não notar a sua presença. Apenas continuava parado, com os cotovelos apoiados em cima das pernas, e a cabeça em uma das mãos.

E tudo começou a mudar de novo. Todo o brilho e a claridade do lugar desapareceram, dando lugar ao escuro, como no começo, antes do alvorecer. E cada vez ficava mais escuro e mais frio.

Amira começou a sentir que iria sufocar e congelar ao mesmo tempo, mas então do meio da escuridão uma luz intensa e ofuscante apareceu e se encontrou com Amira até tomar forma.

– Mãe? – Amira disse olhando para o anjo com olhar terno na sua frente.

Mas não. Elas eram realmente muito parecidas, mas essa agora era diferente. Seu cabelo não era perfeitamente prateado. Era uma elegante mistura de preto e branco e havia alguma coisa no olhar dela que lhe dava uma sensação de intensidade muito maior.

A mulher sorriu para Amira e apontou delicadamente para o peito de Amira, onde o medalhão tinha voltado a aparecer. Amira entendeu imediatamente.

– Nara? – Amira perguntou hesitante. A mulher sorriu para Amira, se aproximou e lhe deu um beijo delicado na testa. Imediatamente Amira sentiu que estava sendo mandada para longe de novo como se estivesse sendo arremessada de algum lugar do céu para a terra diretamente de volta pro seu corpo.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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