RdI – Capítulo 27

Andirá se une

 

Um forte barulho de impacto soou do lado de fora da caverna acordando Nilo com um sobressalto. Nilo imediatamente assumiu posição de defesa. Amira ainda estava desacordada e ele não deixaria o lado dela não importa o que. Mas do centro do local de impacto, a poeira ia baixando aos poucos para mostrar que… não havia nada?

Mas Nilo em sua forma de lobo tinha os sentidos muito mais aguçados que sua forma humana. Ele estreitou os olhos ferozes em direção ao ser invisível que havia pousado com estrondo na frente do acampamento e seu olfato muito mais forte inspirou o odor emanado pela criatura. Imediatamente Nilo relaxou a postura quando ele reconheceu o retorno de Andirá.

Ao mesmo tempo, Amira abriu os olhos e também acordou assustada depois de ter passado três dias desacordada. Ela olhou ao redor ligeiramente perdida, como se não lembrasse que agora estava presa naquele lugar, mas seus olhos multicoloridos se viraram na direção de Andirá. Ela ajeitou o casaco de Nilo sobre o corpo e olhou para a frente.

De alguma forma, Amira não podia ver a quimera como via todas as outras coisas. Mas ela podia sentir toda a aura mágica que emanava da quimera contornando sua silhueta de forma precisa. Mesmo que ele fosse completamente invisível nesse momento, ele estava deliberadamente mostrando sua localização com toda aquela energia liberada ao redor do próprio corpo.

— Você voltou! — Nilo latiu animado saltitando ao redor de Andirá, farejando-o animado, e depois correu para o lado de Amira e disse com um tom mais aliviado da preocupação encostando o focinho no colo dela — E você acordou…

— Me desculpe por ter te preocupado… — Amira disse ainda um pouco tonta.

Ela também sentia as emoções flutuando para fora de Nilo, e como ele tinha ficado tão preocupado ao ponto de não deixar o lado dela nem mesmo para comer.

— Por que você não acordou nos últimos três dias? — Nilo perguntou angustiado.

— Eu tinha sono… — Amira disse em meio a um bocejo. Ela olhou para Andirá que continuava parado no mesmo lugar que tinha pousado — Você pode nos interpretar como criaturas mágicas, mas ainda somos humanos… de certa forma, — ela falou olhando para o lugar onde Andirá estava — Nós podemos sentí-lo, mas não te ver de forma normal, é incômodo.

Andirá pensou sobre isso e achou razoável. O corpo de Andirá era de uma composição única que fazia com que a visibilidade dele pudesse ser controlada. Da mesma forma que ele podia absorver a luz para se alimentar, também podia determinar como a luz se comportava ao redor dele, o que permitia ou não que outros seres pudessem vê-lo, e como vê-lo.

Então, ele refletiu a luz do ambiente ao redor dele, e sua silhueta podia ser vista agora, mesmo que de uma forma estranha, como se fosse um camaleão, camuflado pelo ambiente: visível, mas disfarçado. Amira e Nilo ficaram impressionados, mesmo que a expressão de Amira não deixasse isso claro, enquanto Nilo saltitava mais do que euforicamente ao redor de Andirá parecendo um grande cachorro brincalhão.

Andirá olhou para os dois. Pareciam completamente opostos um do outro. E eram completamente opostos um do outro. Em toda a experiência de vida dele, ele nunca tinha encontrado nada tão absurdo quanto essa dupla. O próprio Andirá era uma criatura que vivia em grupos, e mesmo que ele voltasse pro antigo clã dele, ele teria que lidar com a vingança pela traição, e nunca teria paz novamente ao lado deles. Além do que, esses dois eram poderosos, mesmo que suas habilidades ainda estivessem completamente ocultas.

Andirá suspirou resignado enquanto olhava para os dois, se ajoelhou e disse de forma solene:

— Eu sou Andirá! Antigo guerreiro que lutou do lado dos anjos na Guerra Eterna. Minha raça me traiu e eu fui abandonado pelos meus próprios entes. Minha presença não foi aceita por eles, e pode não ser aceita por vocês. Mas durante os últimos três dias eu pensei sobre o que fazer com a minha vida, e se me permitirem, eu os seguirei fielmente até que o último sopro dessa nova vida que me foi dada seja expirado de meus poros!

— Nossa… — Amira disse se aproximando e estendendo a mão para Andirá — Que discurso formal. Somos amigos! Se quiser ficar com a gente, fique. Se não quiser mais, vá embora.

Amira sempre repetiu essa frase para Breno e Bianca, mas não se lembrava de já ter repetido de forma tão suave. E ela sempre tinha falado sério. Se quisessem ficar do lado dela, que ficassem. Se quisessem abandoná-la, ela não impediria. Da mesma forma, ela também pensava que se quisesse partir, ninguém poderia impedi-la.

Do ponto de vista dela, essa era uma péssima forma de começar amizades e fazer amigos, mas era sinceramente o que ela sentia. Desde a primeira vez que tinha sido atacada por mercenários para ser vendida para sabe-se lá quem, ela detestava a ideia de ter que ser forçada a ficar ao lado de alguém. Da mesma forma, detestava a ideia de que as pessoas se sentissem obrigadas a estarem ao lado dela.

Andirá também teve exatamente o mesmo pensamento, mas ao ouvir as palavras de Amira, ele sentiu uma admiração e uma resolução mais forte de se juntar à dupla. Humanos eventualmente tentavam dominar aquilo que achavam que lhes pertencia. E Andirá queria seguí-los, mas tinha receio de que, por ter recebido um milagre de anjo de graça, ela passasse a lidar com ele como se fosse uma propriedade.

Era assim que os humanos lidavam com as criaturas mágicas. Era assim que os anjos do passado lidavam com as quimeras. Afinal, todas foram criadas exclusivamente para servirem aos frontes de guerra para os anjos. Ter ganhado a liberdade após a guerra era algo que Andirá estimava bastante. Ele conhecia os anjos, e seu comportamento frio e impessoal. E conhecia os humanos com seus comportamentos frívolos e egoístas. Mas essa menina…

Andirá estendeu a própria mão e apertou a de Amira, sentindo respeito e admiração. De mãos dadas, Andirá riu com gosto. Ele não tinha se arrependido da decisão de voltar, e mesmo assim, não conseguiu deixar de se arrepiar pensando em como essa união estranha só poderia ser o prelúdio para uma grande tragédia.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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