RdI – Capítulo 29

O Topo da Montanha

 

— Uau… então ela era alguém tão impressionante! — Nilo disse impressionado.

— Eu estou com mais medo do que quer que tenha tido poder suficiente para matá-la — Andirá disse com a expressão séria, olhando para Amira.

— Não me pergunte, eu não sei. — Amira disse igualmente séria.

— Tio Bran contou que foi um incidente que matou quase todos em uma caravana em que a família Dáler viajava. Tanto o pai dele, David, nosso avô, quanto Nara também morreram. — Nilo explicou para os dois — Ele dizia que tinha sido uma besta sombria muito poderosa, mas assim que matou Nara, desapareceu logo em seguida. Desde aquele dia, a alma de Nara tinha entrado no medalhão que era uma herança da família Dáler e o medalhão foi dado ao tio Bran.

— Entendo… então tal besta ainda deve estar por aí… — Andirá disse pensativo e começou a andar de um lado para o outro falando mais para si mesmo do que para a dupla — Entretanto, mesmo que tenha sido enviada do próprio reino demoníaco, ainda assim não deveria desaparecer do nada. Criatura sombria nenhuma tem esse poder. E pior ainda se tiver sido um enviado do reino demoníaco em pessoa. Nara era a esposa do rei dos anjos! Mesmo que ela estivesse banida para os reinos mortais, porque o reino demoníaco procuraria qualquer motivo que pudesse reatar a guerra?

— Você a conheceu? — Amira perguntou para Andirá. Ele parecia muito abalado, mas estava demonstrando uma preocupação genuína. E falava como se tivesse estado lá.

— Todos os que vivem nesse reino devem ter visto ela ao menos uma vez… — Andirá disse ainda andando de um lado para o outro — Afinal, todo esse reino foi criação dela.

— Como assim reino? — Amira perguntou confusa.

— Reinos são os mundos que existem. Tem os reinos imortais, que pertencem aos seres divinos, os reinos mortais que pertencem à todas as outras criaturas. E os reinos independentes, que não estão ligados à Teia do Universo. Esses reinos foram criados por seres divinos, como uma escultura do que eles imaginavam ser os reinos mortais. Apenas os donos desses reinos independentes e seus convidados podem entrar e sair quando quiserem.

— Então, você está dizendo que a minha avó era dona de todo esse lugar?

— Potencialmente falando, você é a dona agora. É você quem herdou a alma dela, não?

— Mas eu não faço ideia de que poderes isso pode ter. Desde que cheguei aqui, a única coisa que eu pensava era que isso poderia me levar de um lugar para outro, coisa que eu ainda nem descobri como funciona. Criar outros “reinos”? Herdar os poderes da minha avó? Eu não sei dessas coisas.

— Então se quiser sair desse lugar, deve descobrir como usar esses poderes. — Andirá abriu um grande sorriso para a garota, curvou-se novamente como uma forma de agradecimento, então deu um pulo e saiu voando para cima das nuvens, dando grandes voltas ao redor da caverna, até sumir de vista novamente.

Amira sentiu-se feliz por ter ajudado Andirá, embora não soubesse como tinha feito o que quer que tenha feito. Ela olhou para a enorme bola de pelos que pulava e uivava em cima da caverna para a quimera desaparecida. Mas então, o medalhão começou a pesar em seu pescoço, e o sol ficar mais escuro.

Parecia que algo estava… chamando? A sensação estranha do sonho que tinha tido ia e vinha com força, como se algo estivesse tentando despertar. Amira não contou nada do que havia sonhado nem para Nilo, nem para Andirá. Ela já havia ido até o topo da montanha do sonho antes em uma volta de reconhecimento, mas não havia aquela rocha de formato estranho. Mas de algum jeito, havia uma sensação nova, como um chamado ressoando para que ela voltasse naquele lugar.

— Andirá! — Amira chamou. Ela não podia vê-lo, mas podia sentir que ele estava por perto ainda — Pode me dar uma carona até o topo da montanha?

Por mais que sua voz não fosse alta, ela sabia que podia ser ouvida. Pouco depois, uma perturbação no ar soprou contra o chão e Amira sentiu o próprio corpo ser levado por um par de garras que a pegaram pelos ombros, e subiram rapidamente até saírem de vista.

Nilo ficou assustado e começou a correr de um lado para o outro, mas não conseguia farejar a direção para onde Amira e Andirá tinham partido. Era evidente que Amira devia ter alguma relação com o líder de todos os anjos, Metatron, mas nem ela, nem Nilo saberiam dizer alguma coisa sobre isso, então Andirá não questionou.

Andirá tinha mais de quinhentos anos e conhecia muito sobre os mundos. Embora tivesse a longevidade, ele não era imortal. Ele sempre se preocupou em entender os segredos do mundo, mas se deparar com uma pessoa que não era nem um anjo, nem um humano, ele sabia que era algo inédito desde a origem da vida.

Ele sabia que ela só podia ter tido alguma revelação enquanto estava desacordada, logo após ter curado a asa dele. Amira, enquanto era carregada, sentiu uma súbita adrenalina que nunca havia sentido antes, misturada com uma forte pitada de medo. Ela estava voando!

Andirá estava realmente a levando pelos céus, e a velocidade era incrível, e o sentimento… parecia que Amira tinha se tornado parte do próprio vento, do próprio ar, da própria luz, como se ter estado no chão durante toda a vida tivesse sido alguma forma de prisão.

Mas, em questão de poucos segundos, os dois chegaram ao topo da montanha. Andirá acompanhou a garota com os olhos depois de tê-la deixado no chão.

— Obrigada… — ela disse distraidamente enquanto respirava fundo. Andirá podia ouvir o coração acelerado da garota, mas ela não expressava nada no rosto.

— O que pretende fazer — a quimera perguntou, antes que pudesse conter sua curiosidade.

— Não estou bem certa, estou apenas esperando que eu não esteja tendo alucinações…

Amira retirou o medalhão de dentro da roupa, e dobrou as mangas do sobretudo de Nilo para que pudesse usar melhor as mãos. Ela puxou a corrente e comprimiu a peça contra o chão. Esperou, mas nada aconteceu. No horizonte, o sol da tarde já estava baixando e prestes a se por.

Quando finalmente desistiu, foi que a surpresa se mostrou traiçoeira com ela. Justo quando esperava que não fosse real, o tremor começou. A pedra rachou-se em duas e grandes pilastras de mármore branco emergiram do chão formando o grande corredor, e o pórtico ao redor deles. Andirá ficou boquiaberto com o repentino surgimento da construção.

As estrelas surgiram no teto como o céu em miniatura, e a neblina cobria o final do caminho exatamente como em seu sonho. Amira virou-se para a quimera, que agora apreciava as esculturas nos pilares que o circulavam.

— Posso lhe pedir mais um favor? — Amira fez Andirá se concentrar-se nela, enquanto falava — Pode me levar até o final desse corredor? Pouparia-me muito tempo, se é que aqui é como no sonho…

— Claro!

Ele aceitou o pedido tão rápido que nem escutou o que ela ainda queria dizer. Segurou-a novamente pelos ombros e avançou velozmente por todo o caminho até o arco dos cavaleiros alados, o que não demorou mais que dez minutos. Mas Andirá parou de repente, não podia continuar o restante do caminho ao lado da garota.

— Daqui eu não posso passar, Amira, sinto que do outro lado é o salão do Templo dos anjos. Eu nunca vim aqui, mas sei que é guardado pelos anjos guerreiros… não terei permissão para ir adiante. Desculpe…

Amira balançou a cabeça, como um gesto de compreensão. De qualquer forma, ela mesma sentia que daí em diante, somente ela podia seguir. Ela estendeu a mão e cumprimentou o amigo.

— Andirá, muito obrigada. Eu vou voltar assim que resolver o que tiver que resolver aqui. Se eu demorar, por favor, faça companhia a Nilo. Ele deve estar morrendo de preocupação.

— Vá logo! Estaremos esperando por você. — Andirá disse com um sorriso caloroso.

Andirá tinha a esperança que Amira voltasse logo, mas se ele estivesse certo sobre Metatron, ela ainda podia ter muitas surpresas. Então ele deu meia volta e desceu a montanha para o lado de Nilo.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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