RdI – Capítulo 35

Retorno

 

A noite passava tão lenta e silenciosamente que cada tic-tac do relógio ecoando entre as paredes de madeira, parecia durar muito mais que um segundo. Os galhos da árvore moviam-se de um lado para o outro ao leve toque da brisa fria da madrugada. Já haviam se passada mais de três semanas desde a morte de Liana, a lua tinha acabado de entrar novamente na fase crescente e apenas uma pequena pontinha podia ser vista.

Amira olhava perdidamente para o céu, acariciando seu medalhão. A longa trança que costumava usar para prender os cabelos não era feita desde que passou a morar na casa da árvore. Longos cachos prateados reluziam à luz de lamparinas e desciam chegando ao chão do mirante da casa.

Breno e Bianca, sempre que possível, apareciam na casa para visitá-la, mas desde a morte da avó, estavam tomando cuidado para não fazer nada que chamasse atenção de seus pais, e deixá-los desconfiados de que estavam fazendo alguma coisa proibida.

Sentada em uma das cadeiras na varanda, Amira apreciava a límpida noite banhada de estrelas, a brisa fria refrescava todo o lugar, e o cheiro do rio e da floresta relaxavam os pensamentos de Amira, que não a deixavam dormir. No dia seguinte, completaria quinze anos oficialmente, e estava só, e não tinha nada que pudesse fazer para mudar isso.

— SURPRESA!!! — Breno e Bianca estavam sentados nas outras cadeiras da varanda e jogavam confetes feitos com seus cadernos velhos.

Um lindo bolo confeitado e alguns doces ocupavam a pequena mesa, e havia suco de frutas em uma grande jarra. Amira acordou assustada. Nem sequer havia percebido quando havia dormido, e estava tão profundamente dentro de seu sono que não tinha percebido a aproximação dos amigos, enquanto eles arrumavam as coisas na mesa. Aliviada em ver que eram apenas eles, ela esfregou os olhos, afastou o cabelo do rosto, e se espreguiçou um pouco.

Uma leve dor nas costa, por causa da postura em que havia dormido, e pelo fato de ter passado horas sem se mexer em cima de uma cadeira, saia lentamente de seu corpo a medida em que esticava os braços para cima e se alongava.

Além dos doces e do bolo, os dois traziam em suas mãos, dois belos embrulhos feitos com laços de fita.

Animando-se um pouco, Amira abraçou os amigos e abriu os presentes. O de Breno era um belo caderno com a capa dura encadernada com couro, e uma caneta tinteira muito bonita.

— Quem sabe assim você pode escrever as histórias, em vez de ficar pensando sozinha nesse lugar!

— Obrigada. — Amira disse sem jeito.

Já Bianca trouxe dois belos amarradores de cabelo. Ela passou por detrás da cadeira onde Amira estava sentada, então juntou a parte da frente do cabelo da amiga e amarrou na parte de cima da cabeça, deixando o resto solto. Então, juntou o resto e amarrou em baixo e deixando os cachos dobrados.

— Você devia mudar o penteado de vez em quando, sabe?

Amira agradeceu, e balançou um pouco a cabeça, para sacudir as mechas. Como sempre, os presentes nunca eram caros, eles não tinham dinheiro para comprar nada extravagante. Mas eram sempre coisas que Amira gostava.

Os três passaram a manhã brincando e comendo, mas então, Breno mudou bruscamente de assunto, e começou a perguntar sobre coisas que Amira não havia respondido anteriormente.

— Você ainda não me disse onde realmente arrumou aquele casaco enorme, com aquele canivete.

Amira já vinha pensando há dias em contar para os amigos sobre o que tinha acontecido com ela, sobre a ilha, Nilo, Andirá, Metatron e sobre Franz. Mas se era difícil aceitar toda a verdade por si mesma, mais difícil seria convencer seus amigos de que tudo aquilo tinha realmente acontecido. Mas, mesmo assim,ela resolveu contar.

— Embora vocês possam não acreditem, o que eu vou contar realmente aconteceu, talvez eu não saiba explicar direito e, talvez vocês não entendam, nem eu entendo direito! Mas de qualquer jeito, foi assim…

Primeiro falou de Franz e de seu ataque surpresa no dia anterior à morte de Liana. Falou sobre os crivos dimensionais e as chaves divinas, sobre a maldição de Nilo e sobre Andirá e sua aparência esquisita de morcego, mas omitiu a parte de sua mãe ser um anjo, e que seu avô, que não parecia ser muito mais velho que Breno, era o líder de todos os anjos.

Como esperava, nem Breno nem Bianca pareciam ter acreditado pelo menos um pouco na história de Amira, embora tivessem escutado atenciosamente cada palavra que ela mencionou. Mas ignorando esse detalhe, começou a falar novamente:

— Eu não posso ficar aqui muito mais tempo, pode ser perigoso para vocês, e… e eu não quero que nada aconteça…

—Ah… Amira, você realmente espera que a gente acredite que essa história é verdade, por que não é a melhor desculpa que você poderia ter inventado!

— Bom, tudo o que eu falei, é verdade. O meu tio não é uma pessoa boa… eu senti o mau vindo dele. E quando ele perceber que eu voltei para cá, vai vir atrás da joia, e eu não quero encontrá-lo.

— O que você quer dizer com “voltei para cá”, se você realmente sumiu, foi só por algumas horas no máximo.

— Na verdade, eu passei duas semanas na ilha, por isso que tinha areia na minha roupa. O sobretudo é a prova de que realmente aconteceu.

Breno parou para pensar um pouco averiguando as últimas palavras de Amira, e chegou em uma conclusão que não esperava ser a certa.

— Bom, no dia eu imaginei que você tivesse esbarrado com um corpo perdido no meio da floresta de onde achou o casaco e o canivete…

— E você não acreditou nisso, mesmo sendo a opção mais lógica, mas prefere dizer que estou mentindo logo agora, que eu estou falando sério. A coisa mais absurda do mundo aconteceu de verdade comigo! — Amira já estava um pouco irritada com a incredulidade dos amigos, tanto que o seu tom de voz atingiu uma altura quase normal.

Surpresos com a repentina elevação do tom de voz de muito baixo, para baixo, de Amira, começaram a falar fingindo indignação:

— Também não precisa gritar, a gente só acha que você está levando essa história longe demais…

— É mesmo, e você ainda grita com a gente!

Amira soltou um longo suspiro, já não sabendo se continuava a tentar convencê-los, o que tinha feito muito pouco, ou se desistia de vez. Não tinha a menor noção de como poder lidar com a situação, pois tinha passado grande parte dos últimos dias tentando decifrar a forma de como se fazia para pôr a chave em funcionamento.

— Eu quero ver quando eu conseguir trazer Nilo e Andirá para cá, para provar que eu estou falando a verdade, e eu não vou descansar enquanto não descobrir como faz… — nem bem terminou de falar, e algo que não estava esperando naquele momento aconteceu.

Em uma rápida sucessão, uma fenda abriu-se no meio do nada, na frente da varanda, uma chuva de várias cores, vinha do lado de dentro, e ondulações no ar como as que ficam sobre o fogo, dançavam ao redor da fenda, como se tivesse rompido com o espaço. Breno e Bianca foram jogados para de trás da parede do andar por uma repentina e inevitável força movida a medo. Amira permaneceu imóvel no lugar em que estava sentada.

Uma enorme rajada de ar quente e salgado cortou a doce brisa fria da floresta, e um enorme vulto, vindo em alta velocidade, surgiu e, sem controle, saiu da fenda indo em direção ao mirante em que os três estavam. O vulto chocou-se violentamente contra a grade de madeira da varanda, e sua assa passou rente ao corpo de Amira, por pouco não a atingindo.

O corpo de Andirá deslizou junto com Nilo e os escombros, até que foi parado pela parede, que por mais um pouco, seria capaz de quebrar. Dessa vez, os dois irmãos estavam imobilizados por verem o que estava a sua frente. Amira, ainda sentada, olhou para os dois, tentando desengonçadamente, pôr-se de pé e entender o que havia acontecido. Não entendia como era possível que, de repente, com a simples menção do nome deles, Nilo e Andirá pudessem vir parar na sua varanda.

Boquiaberta, ela se levantou e caminhou em direção aos dois e como se não houvesse ocorrido nada de mais, disse:

— Oi, como estão?

Nilo pulava e sacudia o pêlo, tentando recuperar-se do susto. Assim que percebeu Amira parada em sua frente, o corpo dele cresceu do tamanho de um pequeno filhote até ficar com os olhos na altura dos de Amira e começou a falar quase rosnando:

— Onde você esteve? Você sumiu e não disse nada, nós ficamos preocupados! Você sumiu por mais de três semanas, e ainda levou o meu sobretudo! Você…

Andirá se pôs de pé e arrumou suas asas, já que abertas davam quase todo o tamanho da varanda, e cumprimentou a garota com uma reverência assim como quando se conheceram.

— …Você sabe o que eu passei, pensando que o… o Franz tinha… tinha… deixa pra lá! — Nilo disse assim que percebeu onde estavam. — Isso é uma casa em cima de uma árvore? — perguntou, finalmente respirando.

Amira confirmou com a cabeça e estendeu os braços para que Nilo subisse em seu colo, o que ele fez sem hesitar, mas então ele encolheu quase instantaneamente de novo e subiu no colo de Amira.. Ela andou para dentro do aposento, onde Breno e Bianca estavam congelados de terror, e apresentou o lobo e a quimera como se não fosse nada demais.

— Esses são Nilo e Andirá. — Então ela se virou para Andirá e apresentou a dupla de irmãos. — E esses são Breno e Bianca. — Então olhando de canto para Breno, ela disse com um leve tom de arrogância. — Não disse que eles eram reais? Eu não minto! — disse sorrindo — Bem, quase nunca!

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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