RdI – Capítulo 37

Bianca havia preparado um delicioso bolo de frutas e nozes silvestres que estava uma delícia, mas a colherada que estava levando à boca parou no meio do caminho ao ouvir as palavras de Amira.

Os últimos dias haviam sido formidáveis, mas lembrando de uma conversa que havia tido com Nilo um pouco depois de eles terem retornado da ilha, as preocupações de Amira já estavam muito maiores que no começo.

— Talvez Franz tenha ido atrás de mim em outros mundos. Se ele por acaso retornar para cá, não vamos conseguir detê-lo. Ele pode nos matar. — Amira disse jogando diretamente os fatos na mesa.

— Mas como poderemos fugir se não sabemos sequer como fazer a chave funcionar direito… — Nilo disse cabisbaixo.

Nilo ainda não havia aceitado completamente o fato de seu pai ter virado um assassino. Amira, mesmo relutante, sempre pensava que sua família de sangue fosse de alguma raça exótica, mas nunca, nem em seus mais incríveis sonhos poderia supor algo dessa grandeza. Os pensamentos de Amira levaram-na até o dia em que sua mãe Liana havia morrido.

Por que será que não funcionou quando eu desejei que curasse a minha mãe? Eu desejei mais que tudo no mundo que ela se curasse, mas não consegui, por que isso tinha que acontecer?

Então um pensamento diferente ocorreu a Amira. Como se a resposta tivesse sido soprada em seus pensamentos. Era algo tão simples que até mesmo uma criança poderia fazer:

Eu quero! — ela pensou. Querer no tempo presente é diferente de queria, e foi no presente que ela desejou que Andirá e Nilo aparecessem na casa da árvore.

Entre os registros dos aventureiros que às vezes passavam pela vila a caminho de outras cidades, muitos relatavam sobre a invocação de feitiços usados para se defender as criaturas sombrias que habitavam as florestas. Um feitiço possuía sempre uma fórmula básica que deveria ser pronunciada em sincronia com a visualização do resultado pretendido.

Não estando certa do que pretendia, e nem se era realmente seguro optar por essa escolha, Amira segurou seu medalhão e desejou. Desejou tão forte quanto se podia desejar, como se aquilo realmente devesse acontecer normalmente. Desde que as fantásticas verdades sobre sua vida e seu passado foram sendo arremessadas aos quilos em cima de sua cabeça, não custava nada tentar.

Eu quero ir até Metatron…

Enquanto estava de olhos fechados, sentia como se nada tivesse acontecido, mas assim que os abriu, apenas uma luz forte estava na sua frente. Tão forte que quase a cegava. Levou vários segundos para seus olhos finalmente se acostumarem com a iluminação e poder ver onde estava.

Para a surpresa, espanto e medo de Amira, ela se viu realmente no templo dos anjos na frente do trono de Metatron.

Ele estava sentado imponentemente, conversando com o outro anjo de cabelos curtos que havia falado com ela na escadaria durante a última visita. Os dois pareceram ter ficado bem mais surpresos com a presença da garota do que ela mesma.

Metatron fez um gesto de dispensa para o anjo de cabelos curtos assim que a viu. Ele passou sorrindo gentilmente para Amira, com uma leve piscadela e seguiu sem dizer nada. Mesmo sentindo o medo à flor da pele, nada lhe indicava o menor perigo que fosse. Então tentando transparecer toda a tranquilidade que obviamente não tinha, ela se aproximou do trono.

Metatron por sua vez, também se levantou e seguiu o resto do caminho em direção à ela. Suas asas já não estavam presentes em suas costas como antes, na primeira  vez em que ela o viu, mas ainda parecia emanar uma sensação de superioridade.

Ele abriu um leve sorriso de reconhecimento e estendeu a mão para cumprimentar a neta. Sem desviar o olhar, ela correspondeu ao aperto de mãos. Amira sentia como se tudo aquilo fosse uma grande pegadinha. Uma ironia. Nada nesse momento tinha a ver com a primeira impressão que ela tinha tido do avô na primeira vez que se encontraram. Era quase como se ele estivesse sendo amável.

— Pensei que fosse demorar mais tempo para descobrir como fazer os poderes funcionarem. Você conseguiu minha admiração.

Amira só conseguiu acenar com a cabeça como resposta. Não estava certa do motivo pelo qual tinha decidido vir até o avô sobre todas as coisas. Seu coração se enchia de dúvidas.

— Por que parece tão aflita? — Metatron perguntou.

— Eu simplesmente não entendo tudo o que aconteceu.

Sem largar a mão da garota, ela a levou até o trono e indicou para que ela se sentasse ao lado dele. Ele a olhava com curiosidade, quase como se ela fosse o ser fantástico e ele um reles mortal e não o contrário. Amira por outro lado, sentia as fortes ondas de energia e luz que brotavam dele vindas do interior do próprio corpo.

— A história que procura é bem mais antiga do que pensa. Há muitas coisas que nem mesmo o seu amigo lobo sabe sobre o seu passado. Há muito tempo eu perdi o contato com a sua mãe. Mas sua avó não. Ela era um espírito livre diferente de todos os seres que já existiram em todo infinito. Ela sempre se sentia preenchida pelo desejo de conhecer os mundos humanos, e isso acabou custando o preço da imortalidade. O corpo físico dela acabou perecendo…

Amira escutava com atenção as palavras de Metatron. Bem como Nilo havia dito, a voz dele não parecia ser escutada pelo corpo, mas sentida diretamente pela alma. Ele continuou a contar:

— O espírito dela, como o de todos os anjos mortos, entrou dentro dessa joia que era de sua mãe, e teve que ser deixada no mundo dos humanos. Já que nossa raça não pode mais descer ao plano dos mortais e nenhum de nós pode absorver os poderes de um anjo caído, o medalhão acabou parando nas mãos dos seus avós paternos e eventualmente nas mãos do seu pai.

— Então… como foi que eles se conheceram? Quero dizer, os meus pais? — Amira perguntou aproveitando a generosidade que Metatron estava demonstrando em dar respostas antes mesmo dela pronunciar as perguntas.

— Do mesmo jeito que Nara tinha o desejo de conhecer os humanos, Naomi também tinha. Naomi deixou esse reino para se juntar à mãe, mas só o que encontrou foi o medalhão com seu… pai. Com o tempo, ele percebeu a presença dela, conversa vai, conversa vem… aconteceu o que acontece entre os humanos, e eles acabaram se apaixonando. Isso é tudo o que sei sobre a história entre eles.

— O senhor não gosta de humanos? — Amira perguntou mesmo já imaginando a resposta.

Metatron olhou profundamente nos olhos de Amira, que sentiu como se sua alma estivesse sendo lavada por um poder místico.

— Talvez. Ou talvez eu nem me importe… Eu não tenho sentimentos da mesma forma que você está acostumada a lidar, mas… quem sabe eu realmente sinta um pouco de ressentimento por ter perdido minha família para eles… — Metatron não disse mais nada sobre esse assunto. — Eu não tenho mais gabarito para falar de sua mãe ou sua avó que seu colega lobo, mas qualquer outra pergunta sobre mim ou meu reino, estarei à disposição. A propósito, me chamo Ian.

Amira se espantou com a apresentação tardia.

— Eu pensei que fosse Metatron… Me chamo Amira. — ela respondeu por reflexo.

— É, eu sei. — ele disse achando graça. — Metatron na verdade é apenas um título, por assim dizer.

— Entendi. Por que… por que me atacou a primeira vez? — Amira perguntou depois de tomar coragem.

— Os vários mundos possuem leis sobre a entrada de um ser que venha de algum reino de nível diferente. Caso alguma entidade dos reinos superiores deseje ir aos reinos mortais, a lei é o banimento. Mas quando algum ser dos reinos inferiores consegue vir até nós, devemos ajudá-los com seus poderes em memória das almas perdidas que eles carregam. Podemos fazer qualquer coisa desde que isso não implique em uma interferência direta, mas isso não pode ser feito sem o pagamento de um preço equivalente.

— Entendi… — Amira disse refletindo sobre as palavras dele.

— Agora, — dessa vez, parecia que Metatron estava refletindo bastante se falava ou não, — eu tenho uma proposta a fazer para você. Venha morar aqui no reino dos anjos.

Azure Poison
Eu não sou louco. Apenas a minha realidade que é diferente da sua.

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