TA – Capítulo 120

Silêncio

Olhando para a rua pela janela, Lilith e Sarre não podiam e não se atreveriam a dormir.

— Ouvi dizer que, de vez em quando, pessoas desapareciam nesta cidadezinha, e isso vem acontecendo com cada vez mais frequência nos últimos anos. — Lilith perguntou a seu irmão mais velho, — Você acha que é por causa da Tranca Mágica?

Sarre negou com a cabeça.

— Eu não tenho certeza. Afinal, eu nem sei que tipo de Tranca Mágica isso seria. Eu sei que uma vez a Igreja enviou vários pastores para cá, mas não encontraram nada suspeito. No final, eles presumiram que alguns monstros ou criaturas na montanha tivessem pego as pessoas. — Então, Sarre apontou para a pequena casa do outro lado da rua, — Aquela casa pertenceu a um dos poucos senhores alfabetizados aqui em Bonn. Dez anos atrás, no dia dez de abril, sua filha de sete anos de idade desapareceu, e nunca foi encontrada. Finalmente, ele se mudou para o leste com sua esposa, para longe de Bonn, porque eles estavam sempre muito tristes enquanto viviam aqui.

— Dia dez de abril… — Lilith murmurou pensativamente.

A menina, que parecia ser uma figura vinda de uma foto em preto e branco, sorriu para Lucien. Lentamente, ela levantou os braços e começou a correr em direção a ele, como uma filha inocente e animada corria em direção a seu pai.

Porém, a cena era assustadora demais aos olhos de Lucien: o corpo da menina estava flutuando no ar, e seus olhos estavam negros.

Lucien começou a lançar um feitiço, mas ele não conseguiu nem ouvir a sua própria voz. O ar em torno da menina começou a se mover e se transformou em várias correntes invisíveis tentando prendê-la.

Um feitiço de nível aprendiz, Correntes Etéreas.

Assim que a menina percebeu o que estava acontecendo ao seu redor, seu rosto se encheu de ódio e maldade. Ela abriu a boca e começou a gritar.

Lucien estava preparado, pois teve alguma experiência em lidar com almas penadas durante suas experiências. Logo depois que ele lançou as Correntes Etéreas, Lucien ativou Parede Acústica para se proteger do ataque de ondas sonoras.

Em uma luta real, o conhecimento ainda importava muito.

Lucien via as ondas batendo contra a parede invisível em torno dele. Mesmo antes de conseguir um segundo de paz para se orgulhar de sua preparação, a parede de repente se estraçalhou em pequenos pedaços transparentes! O restante das ondas sonoras, apesar de terem sido enfraquecidas até certo ponto pelo feitiço defensivo, acertou Lucien em cheio.

Sentindo o céu e a terra girarem, ele caiu no chão e quase vomitou imediatamente. As tripas de Lucien tremiam dentro de seu corpo. Felizmente, uma camada cinza-claro instantaneamente cobriu a pele de Lucien quando ele foi atacado. Sua Bênção Luar foi ativada automaticamente para protegê-lo. Sem a capacidade de se desmaterializar, ele poderia já estar morto.

Lucien percebeu que aquela era uma alma penada tão poderoso quanto um cavaleiro! Analisando rapidamente que tipo de alma penada e o quão poderosa a menina era, Lucien rapidamente se moveu para o outro lado dela para, em seguida, mover seus lábios, conjurando a magia Luz.

Mesmo a alma penada mais fraca era imune a maior parte dos feitiços elementais. Somente luz, fogo e som poderiam causar dano nelas. No entanto, o feitiço de Luz não funcionou muito bem naquele mundo. A bola de luz acinzentada no céu parecia um pouco fraca e patética. A menina parou por um segundo, mas depois saltou diretamente para Lucien.

Com sua Bênção Luar, Lucien se esquivou por muito pouco como um vulto cinzento. Ao mesmo tempo, ele firmou sua espada e atacou a menina, para depois começar a correr. Lucien sabia que o ataque seria em vão, mas ele não tinha outra escolha, já que ele ainda precisaria de tempo até conseguir lançar outra magia.

Vendo que a espada não a machucou, a menina inclinou a cabeça ligeiramente e sorriu. Então, ela desapareceu de repente e, alguns segundos depois, reapareceu bem na frente de Lucien, com os braços abertos.

Lucien reagiu rapidamente. Ele jogou o peso contra uma das pernas e mudou de direção, começando a conjurar a Oscilação de Homan. Desta vez, a menina se feriu. Lucien viu que seu corpo etéreo oscilava como um corpo de água sendo chacoalhado.

A raiva apareceu em seu rosto novamente e ele ficou cada vez mais macabro. Ela levantou a cabeça e gritou silenciosamente, para depois investir direto contra ele.

Mais uma vez, embora Lucien tivesse conseguido evitar o ataque frontal das ondas sonoras com sua Benção Luar, seus tornozelos de repente ficaram fracos e o seu movimento parou por um segundo. A alma penada o tinha atingido. Por um segundo, a consciência de Lucien vacilou, e então ele se sentiu extremamente cansado e frágil. O calor de seu corpo estava escapando. Ele sentia frio.

A menina passou diretamente pelo corpo de Lucien e parou do outro lado. Levantando as mãos, ela parecia chocada e confusa. O anel que Lucien estava usando, Vingador Gélido, o ajudou a manter o foco. Sem qualquer hesitação, Lucien lançou um feitiço novamente.

Uma rajada de vento frio soprou em torno deles. Uma alma penada foi invocada por Lucien. Ele decidiu usar um fantasma para lutar contra outro fantasma, já que ele percebeu que, naquela dimensão estranha, enquanto a magia Luz era enfraquecida severamente, os mortos-vivos eram reforçados significativamente.

Sendo controlado por Lucien, a alma penada invocada lançou o seu ataque contra a menina.

Eles se agarraram, com os braços perfurando o corpo um do outro. No entanto, parecia que a alma penada que Lucien tinha invocado era mais fraca do que a menina, já que em apenas alguns segundos ela começou a ficar cada vez menos visível.

A menina não levaria sequer dez segundos para acabar completamente com aquela alma penada inferior invocada por Lucien. Entretanto, foi tempo suficiente para ele virar o jogo. Ele deu alguns passos para trás, estendeu a mão até o bolso e jogou um punhado de reagentes em direção às duas almas penadas que estavam lutando. Uma parede de fogo branco as envolveu quando Lucien terminou de lançar o feitiço.

Este foi um feitiço inventado por ele, Muro de Fogo Sulfúrico de Lucien, que havia sido apenas o resultado de um momento de inspiração quando ele estava diante do zumbi aquático e, nos últimos dois meses, Lucien o transformou em uma de suas magias de uso diário.

O único problema com o Muro de Fogo Sulfúrico naquele momento era que a estrutura do seu modelo mágico não estava suficientemente simples, exigindo mais tempo e poder espiritual dele para ativá-lo.

Sendo queimado pelo fogo sulfúrico, o fantasma que Lucien invocou imediatamente desapareceu, e alguns segundos mais tarde a menina começou a mostrar sinais de estar sofrendo com a magia. No entanto, o feitiço de nível aprendiz não iria causar muito dano nela, mas apenas a manteria dentro das paredes flamejantes. Parecia que ela tinha muito medo do fogo, e em vez de tentar forçar seu caminho pelo meio da parede, ela ficou esperando no centro.

Lucien ficou um pouco aliviado e estava prestes a fugir da menina. Diante de um fantasma tão poderoso quanto um cavaleiro, a prioridade de Lucien era ficar longe dela em vez de tentar eliminá-la.

Assim que ele se virou, Lucien deu uma olhada no local de onde a menina apareceu. Através da porta aberta Lucien viu um pequeno esqueleto com ossos finos com a parte superior sobre uma mesa de madeira. A cena o lembrou do que ele tinha lido sobre fantasmas. De repente, Lucien mudou de direção e correu para aquela casa tão rápido quanto um vulto.

Observando-o se aproximar da casa, a menina de repente entrou em pânico. Sem qualquer hesitação, ela correu em direção a Lucien passando pela parede de fogo.

Porém, no momento em que a menina atravessou a parede de fogo, Lucien já estava na frente do pequeno esqueleto. Ele polvilhou um punhado de enxofre em pó sobre o esqueleto, e então ateou fogo.

O fogo branco cobriu imediatamente os ossos. Em meio ao fogo que consumia o esqueleto, Lucien viu um desenho sobre a mesa de madeira, esculpido por algo afiado, como unhas. Era um desenho estranho de uma família de três pessoas, mas então, como uma ilusão, ele se transformou em uma menina esperando ao lado de uma porta.

Sob o desenho, havia algumas letras mal traçadas: Papai… Mamãe… Casa…

A alma penada parou lentamente quando viu o esqueleto em chamas. Ela ficou um pouco surpresa no início, mas depois baixou os olhos, parecendo um pouco triste. Em seguida, seu corpo ficou cada vez mais transparente, desaparecendo gradualmente.

A partir das imagens, das letras em constante mudança e também da entrada da Tranca Mágica, Lucien criou uma hipótese sobre como a menina havia parado naquele mundo. Sua compaixão instantaneamente mandou seu medo embora.

— Papai… Mamãe… Casa… — Lucien murmurou baixinho.

Seu coração estava tocado. Lucien se virou para a menina, que estava quase desaparecendo totalmente, e disse a ela:

— Eu vou te levar para casa.

Naquele mundo feito de preto e branco, o mundo do silêncio, a menina tinha lágrimas caindo pelo rosto, mas ela sorriu docemente, como se tivesse lido o movimento dos lábios de Lucien e entendido o que havia dito. No último segundo antes de desaparecer completamente, a menina acenou para Lucien com gratidão.

Quando o esqueleto foi reduzido a cinzas pelo fogo mágico, a menina também desapareceu. A mesa de madeira tinha sido consumida junto com o esqueleto em chamas.

Lucien recolheu cuidadosamente as cinzas e as colocou em um bolso separado. Agora, ele estava ainda mais confuso com este mundo, já que parecia cada vez menos provável que fosse a cruz magna que ele estava procurando. O lugar inteiro era assustador demais.

Lucien começou a se sentir muito desconfortável com o grande silêncio que tomava conta daquele local. Ele se sentia mudo e surdo. Segurando firmemente sua espada, ele começou a caminhar em direção ao lago Elsinore.

Quando ele estava prestes a deixar a pequena cidade, ele percebeu que o cemitério que viu quando chegou a Bonn desapareceu e, em vez dele, um pedaço de deserto estava na frente dele.

O mundo da Tranca Mágica não é uma cópia do mundo original? — Lucien se perguntou em sua mente, surpreso.

Acelerando o passo, Lucien dobrou uma esquina coberta por mato. Então, o que ele viu instantaneamente o chocou.

O lago ligeiramente avermelhado chamado de Elsinore parecia ser uma gigantesca poça de sangue vermelho-vivo naquele mundo, e ele refletia a imagem invertida de uma cruz enorme constituída por nove estrelas que brilhavam fortemente no céu, banhando todo o lago com sua luz.

Essa foi a primeira vez que Lucien viu outra cor exceto o preto, branco e cinza desde que ele chegou naquele mundo morto.


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Vermillion
Primeiro de seu nome, Nascido do Caos, o Que a Tudo Lê, Spymaster nas horas vagas, Father of Fakes, Professor de Inglês, Um dos Três, Editor do Qidian, Tradutor de TA, Soberania e DNG, Marido Raiz.

16 Comentários

  1. Ficou tanto tempo na passividade que eu tinha até esquecido que o Lucien ainda tá fraquinho. Quero ver qual é a dessa Tranca Mágica. Obrigado pelo capítulo!

  2. Pobre criança, deu uma peninha
    Fiquei imaginando o que teria acontecido se ao invés de atacar, ele tivesse aceitado ela quando ela veio correndo a primeira vez
    =/

      1. Para, pensa de um modo mais positivo
        Um caloroso abraço traria a pobre menininha de volta a vida hahahahha
        Final feliz pros dois =p

          1. Hahahaahhahahahhahahaha
            Morri ^^’
            Me lembrei de quando assistia fairy tail mesmo e era mais ou menos isso aí kkkkkk

            Melhor manter assim mesmo, fogo neles kkkk
            Cabeças rolando e sangue jorrando
            Muahhahahahahahha
            Muito melhor

          2. fogo neles todos não lucien tem medo de virar churrasco.

          3. Lendo esse comentário me lembrei de quando li o final de Fairy Tail e me perguntei como raios eu li até o final, pois é exatamente assim, o que aparece de magia com o poder da amizade no final não é brincadeira 😂.

  3. Imagina que bizarro seria essa cena? Não sei por quê, mas crianças em preto e branco são bem assustadoras…

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